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Fernando Andrade – Sabedoria e humor sutil, duas pérolas suas entregues aos poucos, sem comedimentos. Seus confrontos, o escritor e a escrita, a solidão e um humor meio triste, me senti bem lendo seu livro. Comente sabedoria e humor.
Ao acentuar o humor, você me faz pensar no livro novo – “Os verbos estão cansados” (editora Patuá) – de uma perspectiva diferente. Quer dizer, tinha na cabeça que não recorrera ao humor dessa vez, nem mesmo ao “humor meio triste” que você disse ter encontrado ao lê-lo. Apesar de meu esforço, ele está lá, concluo. E se ele está lá é porque cada um de nós tem uma marca da qual não consegue se livrar. O humor é a minha.
Confesso que sempre me espanto quando apontam humor em textos que nem sempre os pensei humorísticos. Aí reflito e compreendo que não é nada que instigue o riso, mas sim que causa incômodo. A personagem de “Visita à velha senhora”, assassina do marido, explorada pelos netos, visitada pela prima e amante do marido e por todos os seus fantasmas, é engraçada? Não sei, mas é possível que haja uma ironia fina perpassando a história. É possível que faça alguém sorrir discretamente, até com vergonha.
A outra perna da pergunta é a sabedoria. O que tenho a dizer é que explorar o humor de forma inconsciente talvez seja minha única sabedoria.
Bem, com humor e sabedoria, com um ou outro, quiçá com nenhum, enfim, de todo jeito, o bom é ouvir que você se sentiu bem lendo o novo livro.
Fernando Andrade – Não há medida na sua escrita, ela corre solta tanto numa savana, quanto num campo de futebol. Talvez a crônica dê a você a liberdade de inventar tempos; florir espaços, ser apenas livre. Comente.
Interessante essa sua visão de desmesura na minha escrita. Não sei se tem a ver com a crônica, acho que está mais ligada à diversidade do mundo. No livro novo, foco personagens frágeis: entre outros, a vendedora jogada à escrita (“Isildinha não anda nada bem”), o sujeito carcereiro de si mesmo (“A chuva vermelha”), a mulher confrontada pela filha de poucos meses (“No meio de uma tarde qualquer”), ou ainda o sujeito em trânsito entre o real e o imaginário (“É raro chover em Lima”). São ecos de pessoas reais, de vidas em curso, portanto, a desmesura está no mundo, basta olhar para ele. Nisso, a crônica talvez ajude, pois o cronista, mais que o contista, é um curioso nato. Os primeiros cronistas foram os fofoqueiros das pequenas cidades ou dos bairros periféricos das metrópoles, gente que se reunia não em torno de uma fogueira, mas em cadeiras espalhadas na calçada. Ali comentavam que “hum, subiu fulano”, “nossa, desceu sicrana” e em seguida, sem nenhuma informação concreta, passavam a especular o que levara um a subir e o outro a descer.
Fernando Andrade – Você nunca foi tão lírico quanto neste livro. Como a poética se espraia nestes textos lindamente cotidianos. Fale sobre isso.
Sou mesmo um pouco lírico e não sei explicar a razão. Vou escrever e quando vejo estou afinando a lira, é mais forte que minha vontade de ser enxuto. De todo jeito, não creio que tenho errado a mão, o que seria um grande problema. Escorregar na lírica e cair (sem propósito) no melodrama não é muito difícil e é uma derrota. Nesses novos contos, fui tomado por amor aos personagens, e isso reforça o tom lírico. É a verve de um autor que gosta das pessoas, que, se pudesse, salvaria o mundo de todas as atrocidades. O que guardo de mais humano guiou a minha mão escritora.
Juntando esta pergunta e a anterior, talvez seja o lirismo que me permita escrever sem medida.
Fernando Andrade – Sua escrita está muito ligada ao intuitivo hábito da leitura. Deveríamos criar uma religião de leitores que levam da vida apenas bons personagens e algumas fábulas. Você concorda.
Eu gostaria de descriar as religiões. Pelo menos os braços institucionais das religiões, as igrejas, mesquitas, sinagogas e suas hierarquias. Penso que seríamos mais felizes se vivêssemos a espiritualidade de forma horizontal, sem que ninguém fizesse a intermediação entre nós e o deus ou deuses de nossa fé. Sendo assim, não devemos criar uma religião de leitores, mas estimular todo mundo a ser leitor de livros, pois isso ajuda a ser leitor do mundo – o que todos nós somos, caso contrário não atravessaríamos nem a rua de um beco sem saída.
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