Fernando Andrade entrevista a escritora Mayanna Velame sobre o livro ‘Cactos e tubarões’

Mayanna Velame editora Penalux - Fernando Andrade entrevista a escritora Mayanna Velame sobre o livro 'Cactos e tubarões'

 

 

 

FA – Me dê uma ideia – como pintar lacunas onde o texto é pequeno e a página toda branca. Comente.
MM – Creio que o microconto tem essa capacidade. É como um quadro de temática abstrata. O autor é como um pintor. Ele joga, borrifa as tintas e fica a cargo do leitor concluir, ou melhor, prosseguir com a pintura dessa narrativa.

FA – O fim terá sempre uma surpresa onde o sentido vira pintura expressionista.
Fale disso.
MM – O grande barato do microconto é isso: sugerir. O autor lança ao leitor o pouco, mas é justamente nesse pouco, que o leitor vai buscar peças para montar o quebra-cabeça de todo um sentido. Suponho que um microconto é um belisco dado no leitor. As possibilidades do que poderia ser, traz uma carga significativa para a leitura.

FA-  A linguagem no mínimo conto é o grande barato da ficção, balaio de gatos ou de palavras. Me explique.
MM – Talvez das duas coisas. O mínimo tem a capacidade de nos trazer tantas possibilidades. A economia de palavras não surge à toa. Ela é como uma pinça que vai pinicando o leitor. Incomodado, ele se vê nas mais profundas, reflexivas e por que não, nas inúmeras forças de interpretação.

FA-   Como fazer da sugestão algo como a psicanálise, ouvir, sons, ritmos, compassos, tudo é música. Comente.
MM – Literatura tem disso: incomodar. Se eu leio um microconto assim:

Pai

                    Todos os dias, eu vejo meu pai. No porta-retratos pendurado na parede.
No final da leitura, o leitor deve pensar: o que esse pai fez? Morreu? Casos de família? Literatura é um pacote, onde cabem todas as dores, amores e desejos humanos. E o microconto é o muito que diz com o pouco. São dos leitores essas lacunas. E a eles, é dada a missão de preenchê-las com suas reflexões e perspectivas, diante do que vivem e pressentem.

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