Fernando Andrade | jornalista e crítico de literatura
O beijo perfura a língua. O beijo é o avesso da palavra? Sucção de umidade, jeito e volúpia. Ele tem som e estala feito uma percussão toda discursiva. A palavra tenta acalmar o beijo. Ela vem antes dele, como um ato iniciático do desejo. E nesta relação entre o uso, a ideia e a volição por um universo tesudo de vontade, mas que acaba passando pela linguagem verbal, para intermediar a possível tensão do desejo passado pelo corpo, ou pela ideia de um corpo possível e platônico. Estas casualidades interacionais entre os discursos indiretos e o desejo aspirante permeiam as narrativas do escritor Edmilson Borret em seu novo livro de contos O terceiro B pela editora Penalux.
O autor vai de várias formações emocionais da mulher gostosa com um marido crente que se tenciona de ciúmes aos olhares alheios sobre o corpo da esposa, até de personagens que vagam pelo centro do Rio, em busca de um olhar próximo, ao carinho de um afeto ou contato.
A linguagem sempre ferina, e abrasiva, nos dispõe em lentes de uma cirúrgica análise cotidiana do afeto e da pulsão pelo toque, pela febre terçã de um enamoramento tanto visual como corporal.
A sexualidade de seus personagens criam fagulhas nas relações familiares entre irmãos, promovem despertamentos suspeitos em mortes falseadas por suspenses. Edmilson cria toda uma fragmentação de estilos de narrar, para contar sobre como a violência pode ser experiência do corpo recalcado, mas também, um ato discursivo sobre a questão da violência de gênero brasileira.
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