Entrevista com Fábio Santiago

Fabio santiago Versos Magros Autor - Entrevista com Fábio Santiago

crédito da foto: Angela Grochocki Santiago

 
 
 
 

FERNANDO ANDRADE:  Seu livro está muito influenciado por uma estética de contenção sobre a ação de dizer… Você prefere o retraimento do poeta com relação ao seu lapidar a palavra quanto às origens, práticas e ofícios. Fale um pouco sobre isso.

FÁBIO SANTIAGO: Os versos magros, que faço e que dão nome ao livro, possuem duas vertentes, compreendo que a minha poesia é magra, miúda, mirrada, ressequida, longe dos mestres que tanto venero. A outra se relaciona com o meu sertão sonhado e que me chama, neste caso, meus versos são galhos secos, letras ressequidas, solo rachado, cactos e sol(idão).
Os versos magros são de fato versos curtos, as vezes alongados na forma, longilíneos, só que essencialmente curtos, mesmo quando não pareçam.
O VM era parte de um original chamado Mar de Sombras, de 2015. Eu acabei tirando-o de lá. O Mar era para ser o meu primeiro livro, tornou-se um e-book (amazon), sonho vê-lo impresso.
Passei todos estes anos tentando conviver neste sertão de página e me encharcar de sol.
Acho que são os meus poemas mais solares, com sabor de miragens e caatinga.
Escrevo versos magros, versos vícios, nada mais que isso.

FERNANDO ANDRADE:   Há uma certa ideia contínua nos poemas sobre o movimento de andarilhar, como se eles circulassem  certo território. Que espaço é esse por onde o poema se alarga na sua emissão e recepção?

FÁBIO SANTIAGO: A inquietude, o desassossego é o que me faz querer experimentar, arriscar e principalmente movimentar o meu fazer literário. Preciso sempre estar em outro lugar, as paisagens remotas, as miragens magras, o arrebol luzeiro, a mangaba celestial…todos estes lugares sonhados e muitas vezes transcendentais é o que movimentam a minha febre e o meu vício na escrita. Ela é carregada de transcendentalismo psicotropical, imagéticas, pletora e muitas tintas.
Especificamente nos versos magros, eles caminham entre o sertão geográfico e o semiárido da imaginação.Sigo, como um andarilho. Capturando, experimentando e farejando estéticas e versos.
Apenas desta maneira consigo criar.
Nos versos magros a minha poesia quis banhar-se de sol.
Na verdade, vivo em um sertão poético, nesta solidão que me abraça. Gosto de ficar em casa, de me esconder nestes lugares e caminhar de braços dados com as quimeras e os delírios.

FERNANDO ANDRADE: Que relação a sua vida ou sua biografia tem com os temas dos poemas, as cidades são motes para a escrita poética?

FÁBIO SANTIAGO: Eu trabalho com a minha imaginação e com o meu verso vício, repleto de palavras desérticas.
Pouca coisa de fato é biográfica.
Desejo raptar geografias.
Me interesso por capturar o tempo, fotografá-lo e derretê-lo.
Nasci em Maceió, resido em Curitiba desde pequeno, por vezes me sinto estrangeiro, não compreendo muito a origem deste sentimento. Talvez por ser de duas cidades me faça estrangeiro. Nutro tamanha paixão por elas, são o meu chão.
Acabo sempre por escrever sobre lugares imaginados e menos palpáveis.
O Intramuros, meu livro de um poema só, longo e descarrilado, deixa muito claro por onde anda a minha poesia.
Acontece que, quando li, “As Cidades Invisíveis” do Ítalo Calvino, anos atrás, um outro sentimento começou a agitar as minhas anotações. Comecei a escrever algo, que realmente dialoga com estas duas cidades, Maceió e Curitiba, de maneira não tão
sonhada, buscando tocar o solo de cada uma delas e banhar-me com a terra, areia, sol, frio, mar, araucárias…
Acredito que nos versos magros, começo a dar estas pistas, existem poemas para as duas cidades e um cordel enviesado, no qual, eu quis apenas homenagear, pessoas, lugares, memórias e claro, com todo respeito, os mestres cordelistas.
Saiba, meu cordel é magro e enviesado como a minha escrita.

FERNANDO ANDRADE:  As mulheres parecem fazer parte de um imaginário afetivo.  Como as musas cantam compõem o coração do poeta?

FÁBIO SANTIAGO: As musas cantam liricamente e imageticamente para o papel que venta e ondulafrases e versos.
Penso que a palavra é a musa dos poemas que eu escrevo e nos versos magros não poderia ser diferente. Ela está sempre me seduzindo.
A palavra, lasciva que roça o poema e entorta a forma e a cabeça, gingando e mostrando as suas partes, sedentas por versos e ditirambos. As palavras em cópulas.
Perceba que no poema Ninfeta, não me refiro a uma pessoa e sim a esta palavra, que em minha juventude tinha um sabor e envelheceu, perdeu-se no tempo, assim como este poeta.
Claro que existem poemas para a minha companheira Angela, musa e cósmica garota dos tempos espichados.
Repare, no poema Bula Aqui, a palavra/musa é a dona do pedaço, ela dá as cartas e controla a situação/relacionamento.
Em outro poema novamente, repare, as letras no fim da linha/colam seus sexos, criam destinos.
As musas são as palavras, elas gingam nestes poemas buliçosos e inquietos, sou todo delas e da minha esposa (risos).
Poetar com febre, delírio e paixão.

 

Fabio Santiago 280x300 - Entrevista com Fábio Santiago

crédito da foto: Angela Grochocki Santiago

Fábio Santiago, nascido em Maceió, reside em Curitiba. Formado em Comunicação Social. Em 1997 foi indicado pelo escritor Valêncio Xavier para concorrer a uma Bolsa Vitae para jovens estudantes. Criador do blog “Acre
Infuso” em 2004 e agora ativo novamente como coluna mensal no site da Kotter.
Recebeu em 2005 uma menção Honrosa do “Quepe do Comodoro”, Premiação do diretor de Cinema Carlos Recheinbach. Em 2018 teve um poema, “Flores e Sombras na Dobra do Tempo”, publicado em uma Antologia Poética da editora Chiado. Em 2019 publicou o e-book (Amazon) Mar de Sombras. Em 2020 publicou o livro Intramuros, pela editora Penalux. Em 2021 publicou o livro “Versos Magros” pela Kotter Editorial.

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