Fernando Andrade entrevista a escritora Daniela Silva

daniela silva literaturaefechadura - Fernando Andrade entrevista a escritora Daniela Silva

 

 

F.A.: A relação do espaço do sul, de Pelotas e regiões, parece rebater numa ontologia de personagens, onde cultura e perfil biográfico parecem que se estreitam ao questionar\ criar os próprios ditames e caminhos da narrativa. Você acredita que um espaço geográfico pode te dar tanta sugestões e algumas lacunas como da sua narrativa?

D.S.: A sua pergunta me permite falar sobre algo importante para mim: o cotidiano, em suas múltiplas nuances e atravessamentos, como o espaço. Olhar ao redor. O estar no mundo, em diferentes temporalidades. E daí vão surgindo as histórias e as personagens na geografia do meu romance. A(s) trama(s). Caminhar, ler, perceber, impressionar-me, pintar os quadros. Algo exterior se choca comigo, e me coloca fora do mundo, desloca-me, para o espaço da criação, o imaginário. Onde me sinto inteira. Esse lugar, eu acesso pela linguagem, como forma e conteúdo. Em diálogo com outrem. Com a literatura. O poético. Interessa-me muito os deslizes que o poético (me) permite. Sinto que no cotidiano, no aparentemente banal, aí está a potência para a minha escrita. Para a ficção.
Os (des)encontros. Pelotas e região. Espero, outros lugares. Parece-me ser essa a maneira pela qual me coloco no que escrevo. Minhas experiências e não-experiências convivem – como possibilidades de. Empréstimos mútuos. O (re)vivido é e não é o narrado. Daí as lacunas. O espaço para os seres e seus lugares na cidade, como é o caso da lavadeira, da empregada doméstica, da moradora de rua. Das leitoras e leitores. E se há um lugar único é o da diversidade das dores. Aí nos encontramos.

 

F.A.: A pesquisa da narradora, até que ponto ela é uma âncora ou uma bússola para abrir o espaço do porvir narrativo? Quantas perguntas são providenciais para os mitos\arquétipos aflorarem num discurso narrativo? 

D.S.: Penso que é da nossa condição humana querer saber. Esse primeiro quadro que instaura o ato de busca eu o escrevi em 2010. A narradora, a biógrafa, existe em mim desde então. Foi-se constituindo ao longo de mais ou menos dez anos. Narrar e pesquisar é criar vazios que não podemos, não sabemos ou talvez não seja necessário preencher, porque já estão presentes na ausência. O anterior, o intuitivo e a intuição são muito importantes para mim. Depois, vem a criação. O trabalho de escritora. Para chegar nesse ponto, muitas perguntas são (foram) necessárias, como por exemplo sobre a busca e a espera; o ir e o vir. Procuro deslocar as hierarquias e os determinismos. Os limites.
Existem? O que há afinal de contas? Que seguranças temos? O que queremos ser? O que significa ter algo em presença e não poder tocar? Somos sozinhas? As palavras são fundamentais. Daí vem o imaginário e descalça tudo, com suas anterioridades, possibilidades, dúvidas, receios. E estamos a pé novamente. O arquétipo do pai, da morte do pai. Como lidar com uma ausência cuja presença não tivemos como entender, mas que está em nós, justamente por essa força que o imaginário e a fabulação têm?
Não sei, não sei… E me agarro no barco de Cecília, no epifânico de Clarice. Em Quintana. A literatura é também a minha metáfora. A minha ficção vem daí. Do que nasce. Estou em busca…

 

F.A.: Há um interessante discussão metalinguística sobre personagens que parecem transitar entre o real e a ficção. Os blocos que você montou como quadros dão ao aspecto metaliterário contornos mais fortes ao criar identidades com personagens que produzem força em cada quadro. Como foi criar estes quadros e depois tentar costurar alguma unidade no livro todo? 

D.S.: Penso que os quadros vêm num primeiro momento do modo como o livro foi escrito.
Aos poucos. Gosto de viver a escrita e depois planejar. Lembro-me de estar no ponto em que narradora vai de Jaguarão para Pelotas. A música me colocou no espaço do como dizer o que eu queria expressar, e ainda não sabia como. Isso quando estava no intermezzo, digamos assim, pois o final já existia. Se é que posso dizer que o meu livro tem um final, uma vez que ele continua, fruto que é de uma imensidão íntima. Leitoras e leitores dirão. Não é mesmo?

 

F.A.: A fantasia parece ser um forte elo com a relação ou marca de um apego ou pertencimento quando rascunhamos ou investigamos o passado para tentar perscrutá-lo no futuro? A morte, a ausência, são temas que partem de um certo traço de apagamento do sujeito e até da própria criação enquanto corpo\ desejo. Fale disso.  

D.S.: Compreender o desejo é um desafio. Compreender-me como mulher que deseja. Como escritora que deseja a escrita. Nesse espaço de busca eu encontro o desejo não como estar com outrem. Apenas. Pode parecer contraditório, já que meu livro se constitui pela alteridade. Mas é justamente quando experienciamos esse espaço que começamos a nos perguntar sobre quem somos e não somente sobre quem somos com outrem. Desejar, mais do que encontrar. Ser desejante. Para mim, esse é o espaço da ficção. É a vida – em si. Personagens vão e vem a todo tempo na história. Muitas esperam, outras fumam o cano da moto, como o motoqueiro de Rising Sun. Onde está a singularidade? A morte é o lugar de partida para a criação, pelo menos para mim. Morremos com Barthes, como autoras e autores. Ao mesmo tempo em que nascemos com ele, escritoras e escritores.
Talvez a escritora se apague no momento que nasce a narradora. Não sei… Talvez por isso a visita ao passado, à fantasia. Quem sabe? De que morte estamos falando? Talvez voltar ao passado como o lugar ou o espaço do seguro diante do inexplicável. Ou, como o espaço das primeiras mortes, com o nascimento da consciência da subjetividade.
Nascemos do contraditório. Mulherzinha gigante emerge no meio dessa busca. Da e na escrita. Morremos (a todo instante), por isso desejamos? Parece-me que o apagamento do sujeito existiria caso fosse impossível imaginar. Imagino…

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