Três poemas de Anderson Lucarezi

LUCAREZZI - Três poemas de Anderson Lucarezi

Anderson Lucarezi é escritor, professor e tradutor. Publicou Réquiem (Ed. Patuá, 2012), livro vencedor do Programa Nascente USP 2011, e Constelário (Ed. Patuá, 2016). Como tradutor, publicou, em parceria com Lucas Zaparolli de Agustini, a tradução Gravuras Japonesas (Benfazeja, 2017), livro de John Gould Fletcher. Mantém o blog de poesia, tradução e crítica tudo-esta-dito.blogspot.com

 

 

 

sumo.

vou chupar – rara sincronia – desse
(o sumo) átimo – entre vontade e fato – 
entreato da rotina – estima – : o que vale
a via. – consumada por ouvido, tato 
olfato, língua e vista: memória da pele. 

que o momento é vago, que o intento é ato,

que o que segue é lapso,

que à manhã vem a lida e o embargo
e o cancro e o atrocaducapacausti etc 

sem: tempo perdido louvando o apogeu. 
deixar para o depois, hora triste 
quando, passado o brilho – Halley – 
de estar com quem se quer, 
só o que houver for: escrever

(de Réquiem, 2012)

 

***
sequer o céu é sincero:

a estrela que cintila
não é a estrela que cintila,
visto que, na real,
imagem antiga.

o escuro que anoitece
não é o escuro que anoitece,
visto que, de onde vem,
já se fez brilho.

iria, eu, de volta,
fosse aceito,
a um céu do presente
em que uma estrela extrapolasse
ser mera brasa enganosa:
talvez, quem dera, farol
(visto que agora é lanterna traseira)
de um carro-tempo mais-que-perfeito.

(de Constelário, 2016)

 

***
sextante e astrolábio à mão,
mirando terras – longínquas –
nas caravelas, os navegantes,
regidos pelo – claro – céu estrelado:
toda uma geometria,
compassos e esquadros,
a abóbada celeste dividida,
esquadrias e quadrantes
pra firmar a confiança
no oceano oscilante.

olha! – dizem – terra à vista!
semear açúcar, algodão,
(este lugar ainda vai se tornar
um imenso canavial!
um imenso algodoal!)
extrair minérios,
construir impérios,
ano após ano,
erigir a civilização,
cujo intento maior: lucrar.

das nações surgidas por cá,
uma, que fez a América
(em cima das guerras)
pensou: por que não alcançar,
ali, aqueles pontos cintilantes,
que serviam, antes, de guia
aos argonautas?
se fez, a partir de então,
do Cabo Canaveral
trampolim pro espaço sideral.

satélites, elites me espreitam,
será que já parcelam a passagem
(vinte milhões de dólares)
pra subir a seiscentos quilômetros,
orbitar na estação internacional,
inaugurar um nicho de mercado,
acenar pra rede social
e, se der, trazer como souvenir
um cinturão de asteróides
pra noiva da vez, trinta anos mais jovem?

o canto humano (anglo-saxônico)
já está across the universe,
mas há sons vindo de outras galáxias,
sons orquestrados, música!
serão companheiros de incógnita?
ou apenas o ruído de fundo
(fruído por ouvidos cruéis,
tal criança frente formigas em marcha)
de uma caixa de música
da qual a Terra é mero strass?

(de Constelário, 2016)

 

 

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This Article Has 1 Comment
  1. Chico Lopes Reply

    Instigantes, Anderson. Parabéns.

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