FERNANDO ANDRADE
jornalista e crítico literário
Preste atenção na palavra feto.
Um devir, uma virtualidade, concepção nucleada engendrada por DNA(s).
Toda vida se deixa afetar: meio. Como atravessar a vida biológica se não apenas pela linguagem? Se há algo que se normatize em seio, anseio, busca-se desejo.
O corpo morada de tensões- tesões- coesões, rogue à algum Deus, uma mitologia entre a sede da casa e sua ruína. Não se trata de olhar fora a arquitetura da projeção dos espaços da casa, àquilo entre o vão da porta- entrada; órgãos são como interiores de uma morada antiga.
A visão do locatário, o morador nunca é tão íntima; pode se dar por exílio, estrangeiro lugar do chão dos pés estrangeiros. Viver é um ato que sai da casa e se torna contínuo. Não perpétuo, porém.
Fraturar-se é não apenas usar a linguagem sem escudos de arestas ou frestas por um olho desavisado nalgum lugar. Fraturar é sair de si, e buscar outro alguém, um Godot que espera um personagem que de tão esperado se torna a sua própria loucura.
É nesta fricção de espera entre o corpo exposto em feridas, e junta junções tanto dos tornozelos, pulsos, palavras, órgãos sem corpo, torções de palavras que dão órgãos-palavras híbridas, sentidos fraturados, essa mesa pós-operatória cirúrgica é que faz a poeta Raquel Gaio em seu belo Manchar a memória de fogo, Editora Urutau.
Adoecer no seio de alguma flor primeva, toda sorte de um outono que se transforma em afetos, que deixa de ser casca para ser cerne. Sua espera algo Beckettiana, está dentro do próprio amadurecimento da linguagem enquanto homeostase com o meio.
Se há algo que a poeta não repele são seus afetos. Fratura-se antes de tudo, talvez aqui um opinião do crítico e recusar uma forte neurose sobre a raiz que nos fixa à casa. Casa também é (dês)pertencer-se É (dês)pertencer-se de uma ambivalência sobre o pertencimento. A linguagem talvez poética seja a única que opere neste levantamento.
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