“O corpo resvala para o precipício” – Três poemas de Pedro Loureiro

 

 

O chefe não é errante
é uma cidade de ângulos mortos
e está rodeado de fórmulas
abomina o incomensurável
promove o equilíbrio estacionário
não dança, meneia-se
em movimentos corpo/rativos
ao som de uma única verdade absoluta
lamiré da concordância
que interfere e comunica com os órgãos
um acrescento ao corpo
que elimina a palavra
o chefe contorce-se perante as palavras
pitecantropo do sentimento
o chefe é taticamente evoluído
ser de uma ética veloz
de uma infidelidade imagética
sempre em busca de olhos coletivos
mãos que se coloquem numa fenda
acreditando que nada acontece
enfim, matéria em absolvição
como se fosse possível a morte
continuando vivo
o chefe gosta de jogar
não uma, mas milhentas vezes
enquanto a criança tenta desmontar
a patranha do mundo
o chefe abdica de substantivos e razões
sem saber que pelas palavras
entram as coisas pelo mundo dentro
diálogo em aproximação e afastamento
o chefe grita e doseia a dor
empurra para o movimento
coloca todo o seu peso
numa só perna
e expropria corpos do mundo
o chefe é um fato apertado
e provoca indigestão
de caneta em punho apropria-se
um rabisco e já está
tudo transforma em casa
tudo pode pisar
tudo pode partir
o chefe sente uma grande alegria
na ponta dos dedos
e uma grande tristeza nas orelhas
e não, o chefe não sofre de astigmatismo
e lá continua ele
ocupando um substancial volume
sem “géstica de pensamentos”
enquanto a dor dói no mundo

 

 

***

O corpo resvala para o precipício
e no preciso momento da queda
pause
rewind
estilhaço às arrecuas
pause
play
uma árvore deixa fugir
um bando de pássaros
e a criança sorri
como se tudo tivesse percebido

 

 

***

Incrível como resiste a escória
como cresce e se multiplica no breu
imune a sulfatos e humanismo
mantém-se inerte, encoberta,
disfarçando seu odor
através de mutações morfológicas
para reaparecer de novo
leve e perfumado
como peras tenras
uma outra face
de um mesmo prisma
decompondo e dispersando
a mesma luz enferma
em suas falsas cores

 

 

Pedro Loureiro –  Nasceu em Viseu em 1977.
Em 1995 rumou a Lisboa para estudar economia. Vive e trabalha nesta cidade desde então.
Editou o 1.º livro de poesia “That’s all folks” em 2017 pela editora Urutau. No início deste ano editou o segundo livro de poemas “Astigmatismo ou Redenção” também pela editora Urutau.

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