“Dura é a procura da palavra rara” – Três poemas de Leonardo Almeida Filho

 

Poeminha japonês

Um dia espada,
outro crisântemo
Quem há de não saber
o quão distante são
horizonte e vertigem
– irmãos da miragem –
no peito de um homem?

E no entanto, em
perto, dentro, aqui
como raiz de rododendros
em jardim de pedras
ígnea delicadeza
plácida rutilância
seiva e magma
pulsação e silêncio.

Se o avesso é vero
e vário o exposto
eis por que espada
eis por que crisântemo
eis por que o corte
eis por que eu sangro.

 

 

Encalacrado

Para Glauco Mattoso

Dura é a procura da palavra rara
Avara sina que se insinuara na incrédula criatura.
Atura, jura, fura a mais profunda escuridão, o breu.
Como fora um monstro estranho,
Entranha-se na trilha, esmera-se no brilho turvo e torpe,
prova do estorvo da nervura claro-escura, treva sempre impura do real.
Sigo assim, prossigo, muito mais que abrigo amigo
O âmago mágico, consigo
Gosto, gasto, gesto, grito e ganho o que persigo
num vasto silo encalacrado: um arsenal.
E o poema acena aquela velha cena
A vela sempre encena a palavra acesa
Que se nos liberta e acerta e aperta a jugular da fera
e o poeta encerra a dor cruel do trivial.

 

 

Oximoromaquia

Pensando o poema, me vejo assim emimesmado
compondo aporias:
Supérfluo imprescindível?
desprezível mais que necessário?
Que dizer da poesia
já não dito e silenciado?
Será talvez, e realmente, o nada que é tudo
no símbolo pessoano encalacrado?
Onde, ó musas tortas, onde o poema?
No verso e fora dele? Na asa e fora dela?
No avesso e desaforo
de um inverso verso áporo sem foro?
Desabrigado? Sem teto? Sem casa?
Senhor deus dos desconsolos
Onde o poema? Que é da poesia?
É mesmo tudo? nonada é?
Emimesmado sigo rascunhando
Meus versinhos, derramando-me
expondo minh’alma fingida no varal
e o resto é o vento, o vento, o vento…
soprando meu silêncio.

 

 

Leonardo Almeida Filho (Campina Grande, 1960), professor universitário, escritor, reside em Brasília. Mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (2002), publicou, em 2008, o seu livro Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito (EdUnB). Alguns trabalhos publicados: O livro de Loraine (romance, 1998), logomaquia: um manefasto (híbrido, 2008); contos em Antologia do Conto Brasiliense (2004) e Todas as gerações (2007) e pelo Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); poesias em Poemas para Brasília (2004) e pelo Prêmio SESC de poesias Carlos Drummond de Andrade (2011). Publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem (Hinterlândia, 2010), que aborda o cinquentenário do escritor Graciliano Ramos.
Publicou, pela Editora e-galaxia, Nebulosa fauna & outras histórias perversas (contos). Lança, pela Editora Patuá, o livro de poemas Babelical (2018).

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