Crédito foto – Angela Nadin
Filha da miséria
Eram quatro quartos montados com o improviso da miséria
Separados por panos em farrapos de onde era possível ouvir o grito agoniante daqueles
estômagos vazios
Eram quatro espaços diminutos onde a mãe contava histórias
Eram frestas nas paredes de retalhos que ao frio provocavam arrepios
Pés descalços, em feridas das pedras pontiagudas da vila
Pelo leite e pelo pão, as mulheres murchas envelhecidas faziam fila
Era pouco, quase nada, em lágrimas densas saía a mãe da mesa
Engolia o luto da vida perdida, do filho consumido de fome e pobreza
Havia o pó que subia sem dó quando passavam os carros dos poderosos
Era caminho das belas mansões que ao longe faziam silhueta
Nos vales com montanhas verdes e picos rochosos
Enquanto do lado de cá criança faminta marcava a sarjeta
Já nem cantava aos filhos canções de ninar
O sono só vinha quando o corpo faminto desabava de tanto chorar
Não quis o destino dar-lhe esperança
Encheu-lhe o ventre e a casa de rebentos sem instrução
Sofria com a expressão do desespero no rosto cansado de cada criança
A cada doença da água estragada e comida faltosa feria-lhe o coração
Diziam-lhe que era escolha sua porque se quisesse nenhum filho faria
O olhar de desprezo de quem desconhece a vida que leva, sem nem compaixão
Escrevia duas letras, se muito, nem mesmo seu nome de fato sabia
E dela esperavam cuidados que nunca quem julga foi capaz de ensinar
Mas é bem mais fácil na vida apontar o dedo e poder condenar
Ela, que só tinha coragem de catar nas lixeiras o que os ricos deixavam pra trás
Ela, que tinha seis bocas vazias em casa para alimentar
Os outros sucumbiram à fome, à dor e a miséria que nunca os abandonou
Ao contrário do pai das crianças que um dia partiu e nem se importou
Era ela contando com a sorte, testemunhando a morte que insistia em voltar
Sozinha no meio do nada, a vida acabada a sempre lembrar
Que assim o destino quisera, sem choro nem vela, amaldiçoar
Cada filho dessa vida ingrata, sob a miséria morrer e matar
Tiravam as chances da vida, por um pão aceitava qualquer humilhação
Menino criado como bicho sarnento e ainda cobravam ser bom cidadão
Nas vielas da vida, sem eira nem beira, ia ela implorar
Um prato vazio de comida sobre a mesa quebrada da casa que ia se esvaziar
Dos filhos, famintos, sem chance, os que viveriam iriam roubar
Ela, fraca e sem brilho, da vida maldita que Deus lhe deu
Abraçou o diabo com força, pedindo à benção de quem já morreu
Os panos que separavam os quartos testemunhariam sua depressão
Seu corpo entregue aos homens com bom dinheiro e sem coração
Debaixo de corpos pesados, suspiros molhados, chorava de dor
Ninguém se importava com ela, não havia na vida conhecido o amor
Jovem em corpo de velha, as marcas da fome eram tal cicatriz
Olhava pra trás na sua história e sabia que nunca tinha sido feliz
Agora, com filhos bandidos, ou mortos, perdidos, se viu sem razão
Da miséria guardada no bolso, a faca em ferrugem encontrou o coração
Morreu sem dentes na boca, barriga vazia e uma história sem cor
Morreu chorando baixinho, no seu cantinho, sem pedra bonita ou coroa de flor
(Poesia do livro Versos e Outras Insanidades – Macabéa, 2017)
Suspiro
O silêncio marcava o compasso da dor
Nos passos errantes, no traço inconstante, o olhar de terror
Fumaça de pólvora nova no cano da arma
Dois passos, joelho na terra, venceu o seu carma
Os olhos vidrados no céu, pedindo perdão
Num campo cercado de corpo, encontrou em si mesmo a pior solidão
Guerreiro, sem triunfo ou medalha, caído no chão
Preso, em meio à batalha, não foi campeão.
Na garganta, a secura da alma prendeu seu último suspiro.
(Poesia do livro Poemas para Ler no Front – Patuá, 2019)
A porta
Ao raiar o sol, como um vendaval furioso
Ao nosso redor contam-se bombas e campos minados
As portas e refúgios se fecham como flores murchas
E a gente, de joelhos ralados, conta passos, causos e tragédias
Ao redor da fogueira imaginária de um acampamento de insetos
Respiramos fuligem ao gosto de ferrugem do sangue não derramado
Vê-se ao longe um risco cuja cor escapa da poeira
Vê-se no horizonte o brilho tímido da esperança
Então corremos a passos lerdos em nossos pés enrijecidos de pedra
E lá, no meio do tudo misturado com o nada, reluz o objeto
Recuo com medo e pergunto o que é – “É uma porta”
Responde-me o menino mais velho
Uma porta pequena cheia de folhas dentro
O único de nós que um dia foi pra escola se senta sobre restos de prédios e abre a porta
Afasto os ferros que um dia foram estrutura e sento no pó para ouvir
Diz-me ele que a porta é um livro
Diz-me ele que a porta é um livro e um livro nos faz livres
E passamos o resto dos dias livres dentro da porta
(Poesia feita em homenagem à professora e pesquisadora Regina Dalcastagnè)
Maya Falks nasceu Márcia Bastian Falkenbach, no dia mais frio do ano de 1982. Sua história com a literatura começou aos 3 anos, ditando à sua mãe os diálogos dos quadrinhos que desenhava. Aos 7 esboçou seu primeiro romance romântico, aos 11 escreveu seu primeiro romance policial e aos 14 reuniu suas poesias em sua primeira antologia. Nenhuma dessas obras foi publicada.
Aos 24 anos, junto com sua primeira vitória em concurso literário, Maya escreveu aquele que seria seu primeiro romance publicado – somente 8 anos depois – intitulado Depois de Tudo.
Atualmente, Maya é publicitária, jornalista, acumula mais de 20 prêmios entre contos, crônicas e poesias e é autora das obras Depois de Tudo, Versos e Outras Insanidades, Histórias de Minha Morte e Poemas para Ler no Front.
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