“Retratos” de um Narciso (às avessas), por Henrique Marques Samyn

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Henrique Marques Samyn é escritor e ensaísta, idealizador e coordenador de LetrasPretas [letraspretas.wordpress.com] – projeto que visa a divulgar a produção de escritoras negras, com ênfase em obras de autoras brasileiras independentes. Negro, foi criado no bairro da Praça Seca, na zona oeste do Rio de Janeiro. Professor do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), é Doutor em Literatura Comparada, tendo concluído pós-doutorado; mestre em Psicologia Social e em Filosofia; e bacharel em Filosofia e em Letras.

 
 
 

por Henrique Marques Samyn

Debrucei-me sobre Retratos imateriais, novo livro de Jean Narciso Bispo Moura, tendo lido apenas um outro livro seu: Excursão incógnita, publicado há cerca de uma década. Sei que, entre estas obras, Jean publicou pelo menos outros dois livros, que não conheço; desse modo, o olhar que lanço sobre Retratos imateriais tem, como referência, duas etapas na fase do poeta, separadas por cerca de dez anos.

Em meu extinto blog, Clave Crítica, publiquei uma curta resenha de Excursão Incógnita – que, naquela época, li como “escritos de um autor que cultiva o estranhamento, inclusive no que diz respeito à escrita, mas que muitas vezes parece conceber a poesia justamente assim: como um ‘exercício de estranhamento’, com tudo o que envolve de contingência”. A meu ver, o que naquele momento faltava na poesia de Jean Narciso era, precisamente, um maior rigor poético: afastar-se do arbitrário, recusar o acidental, encontrar uma economia discursiva que trouxesse mais impacto ao texto.

Nesse sentido, é impossível não reconhecer o amadurecimento do autor em Retratos imateriais. De certo modo, Jean Narciso evidencia o modo como refinou seu diferenciado olhar em “correio eletrônico”, composição em que diz a um interlocutor imaginário (que poderia muito bem ser ele mesmo): “não somos sumidades no mundo das letras / brincamos de verso / quando às cinco da tarde / as nossas mães interrompem a brincadeira”. Longe de mero artifício retórico, o poema parece encerrar um produtivo exercício de autocrítica, em que o poeta se revela – faça-se o trocadilho – um Narciso às avessas, o que simultaneamente constitui um poderoso gesto de libertação (o que, a propósito, não deixa de aludir à “Poética” bandeiriana).

Poemas como “os olhos verdes versus os olhos negros”, “presença fugidia” e “utopia” parecem-me notáveis exemplos da nova expressão poética de Jean Narciso, predisposta a abrir-se ao fortuito sem com isso negligenciar o labor e o rigor próprios da construção literária. Enfrentando as sempre artificiais fronteiras que fragmentam a existência em busca de (supostamente) raros momentos dignos de elevação estética, o poeta se lança à tarefa de abrir-se ao mundo, fazendo da palavra um instrumento transfigurador. Ávido desvelador da matéria lírica latente em meio à concretude do real, Jean Narciso Bispo Moura cada vez mais se reafirma como um poeta disposto a reinventar-se, destacando-se como voz autêntica e prolífica em nosso cenário contemporâneo.

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