Nos contos do livro Deus e o peixe-voador, de Douglas Oliveira, o imaginário religioso funciona como uma tela projetiva e provocativa

 

por Jean Narciso Bispo Moura

 

Existe  um mantra no meio literário que quanto mais filigranas e camadas habitarem dentro de um texto melhor ele é.
Confirmo esta visão ao ler “Deus e o Peixe-voador”,  de Douglas Oliveira, editora Folheando, 2018, livro composto  por 6 seções de contos.

O escritor paraense  Oliveira por meio de uma narrativa instigante, surreal,  traz para o corpus da sua escrita personagens da cultura universal num movimento interdisciplinar, indo do religioso ao desencantamento urbano, encerrando os contos sem som de alaúde e nu de qualquer sonhado adorno, desembarca-nos  ao término de cada um, na porta cinzenta da cruenta realidade.

Nos contos de Oliveira  o imaginário religioso funciona como uma tela projetiva e provocativa, nos carregando para outro horizonte que não o aparentemente guiado pelo autor.

No texto há paredes falsas, e de modo proposital nos habilitam a compreender o mundo contemporâneo intersecionado pela política ( impeachment da presidente Dilma), fanatismo religioso, questionamento sobre a hegemonia masculina, o mercantilismo da fé,  questões lgbt, déficit habitacional,  cobrindo assim boa parte de questões fulcrais do mundo ordinário.

Há também na obra  de Douglas uma espécie de desconstrução da predominância da verdade universal, aproximando-o muito do ideário dos pensadores relativistas. Ele utiliza deste modo o mítico como isca reflexiva para mergulhar  na experiência epistemológica do homem histórico,  colocando o homem presente em constante perspectiva.  O autor neste jogo discursivo e dialético põe o indivíduo no mirante sartreano, para que ele assim consiga avistar no outro, que ele é também responsável pelo curso do próprio destino.  A obra vai deste modo do mítico como elemento retórico para residir no recém convertido e palpável chão existencial.

Neste ato peripatético  elaborado pelo escritor podemos avistar e nos aproximar de  Judas,  João (do livro de Apocalipse), Erasmo de Roterdã, Lutero, Judas, para enfim nos depararmos, neste conjunto de texto, com a inconteste máxima sartreana que reproduzo aqui ” O homem está condenado a ser livre, condenado porque ele não criou  a si, e ainda assim é livre. Pois tão logo é atirado ao mundo, torna-se responsável por tudo que faz”.

 

 

 

Please follow and like us:
Be the first to comment

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial