1 conto inédito de Giovana Damaceno

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Crédito da imagem: pixabay.com

 

 

 

Efêmero

Sem hora nem dia certos, apenas chega. Na ruazinha do lado de casa, buzina seu carro preto – o mesmo carro preto. Jamais hesito, sequer penso. Num átimo estou perto, junto, ofegante, suplicante. Braço apoiado no encosto do banco do carona, carrega um sorriso maroto e olhar vívido. O paletó está aberto, o nó da gravata frouxo. Aparenta cansaço, após um dia de trabalho exaustivo, com as mechas levemente cacheadas em desalinho pela testa, a camisa amarrotada. Não me beija. Recua, apesar da insistência do meu movimento a fim de alcançar-lhe a boca. Frustrada, beijo suas mãos, roço meus lábios em cada um de seus dedos. Contemplo seu rosto. O arfar de meu peito revela a paixão irrefreável e a saudade que parece já durar uma vida. Enquanto traga o cigarro e bafora a fumaça despreocupado, perscruta-me dos pés à cabeça, sem me tocar. O olhar dele tem tesão, tem saudade também. E certa ponta de tristeza. Percebo em sua respiração o ímpeto por me tomar e se afogar no meu abraço. Fuma e me encara. Não diz nada. Nem eu. Nossos olhos dizem tudo por nós. Assim permanecemos, sem mundo em torno, sem ruído, só a névoa por trás das janelas, enroscada nos vultos das árvores da praça, e a brisa que sempre nos acompanha.

Há anos aparece sem aviso, sem prazo, sem data, e nos amamos. A falta que fazemos um ao outro é tamanha, que somos ávidos, frenéticos, furiosos até. No entanto, somos breves. Sabemos que logo acaba e ele terá de ir, ou eu. E tudo é apressado. Num dos primeiros encontros disse que me amava. A ternura em sua expressão confessava por si, nem exigia as palavras. Nessa noite, cometemos o amor, do início ao fim. A única noite em que tivemos tempo – não temos controle sobre esse tempo. Reconhecemo-nos e nos unimos, pertencíamo-nos desde algum lugar distante e sabíamos que éramos um. Beijos inesquecíveis, é o que preciso dizer, pois beijos são a porta para a entrega completa, e nada viria sem os lábios grossos e molhados, a língua faminta e sôfrega. Ainda que não possa me oferecer o amor por inteiro, como ocorre em tantas outras vezes, sou sequiosa por seus beijos, que seja somente um, efêmero, posso me contentar. Na mansidão do amor, sem a urgência dos demais no porvir, foi um beijo sem fim, que não se concluiu, até o prazer máximo do desejo saciado. O beijo que senti por horas a me queimar a boca e arrepiar pele, depois de tudo.

Não sei se o amo ou se um dia amei. Amo o amor que me devota, o quanto sofre a privação de minha companhia, o anseio pelo meu corpo, a fome pelo meu sexo quando finalmente vem me ver. Ele me encanta, fascina, faz fremir cada cantinho dos meus nervos. Com ele, sou inteira dele.

Um dia, de pé diante de mim, o desalento estampado na face, olhou-me longamente. “Não quero ser seu amante”. Em poucas ocasiões se expressou pela voz. Beijou-me as mãos, meu pescoço, suspirou meu cheiro, tocou de leve meus lábios, roçou meu rosto com o dele. Curvou-se, apoiou a cabeça em meu colo e chorou. Enquanto acariciava seus cabelos negros, assisti a tarde levando embora o dia, empurrando o sol para trás das montanhas ao longe, deixando um céu vermelho. Ficamos assim, por segundos arrastados. No peito, o aperto da despedida que se aproximava, a insegurança que nos abate no instante da separação, a aflição da incerteza, o amor sofrido e resignado doendo na carne, a alma tremendo de medo de uma vida sem ele por perto. De repente, ergueu-me como a uma criança, acima dele, com os braços tesos ao alto: “Não sei se suporto mais tantos anos longe de você.”

De volta ao chão, tentei eternizar aquele momento. Segurei-o pelas mãos e não consegui falar – nunca digo nada. Sinto-o, amo-o, adoro-o além de minha compreensão, porém calada. Quis trazê-lo para mim, prendê-lo talvez, quis balbuciar um “Não vá. De novo, não”. Com garganta incapaz de emitir qualquer som, limitei-me a olhá-lo, clamando por ele em silêncio, apaixonada e triste. Entre nós, a aura do costumeiro sentimento de perda iminente, de medo, de pavor por não saber se voltaremos a nos ver. Tudo acontece num rasgo de tempo, o lapso em que uma réstia de luz do sol atravessa uma clareira na nuvem e em seguida se põe. Então, desperto.

 

 

Giovana Damaceno
Jornalista e escritora
Escreve no site pessoal www.giovanadamaceno.com
Autora dos livros: “Mania de Escrever” (2010), “Depois da Chuva, o recomeço” (2012) e “Do lado esquerdo do peito”, (2013).
Membro da Academia Volta-redondense de Letras
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This Article Has 2 Comments
  1. Pingback: Efêmero – Giovana Damaceno

  2. José Huguenin Reply

    Texto com a intensidade característica de Giovana Damaceno!

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