Livro inclassificável de Ana Luisa P.A. Romão, fica essa noite, virtualiza relações entre gêneros para (con)fundir real e invenção.

Fernando Andrade – escritor e critico de literatura

AFernando 150x150 - Livro inclassificável de Ana Luisa P.A. Romão, fica essa noite, virtualiza relações entre gêneros para (con)fundir real e invenção.

 

 

 

O tempo de uma canção é mais ou menos 5 minutos. Como controlar isso? se dentro dela tem pelos menos dois corpos depois, bons corações, a letra e a melodia. Parece uma régua matemática, mas tá mais para compasso poético. Se eu fosse me tocar, diria que é bom pedaço de jazz mui sincopado talvez numa gíria canhestra sim (in) corporado. Mas e a vida é um banjo ou esbanjo relações não dicotômicas entre obra e experiência; entre autor e letra. Contar o que tem por dentro do corpo não é só pensamento, e não necessariamente precisa de tradução. O banco e o violão já dizem por si mesmo. É uma nota só, quem quiser que dedilhe por ouvido e cante o estribilho.

 Tudo aqui que falo em tom cantante- poético me remeterá ao álbum branco não dos Beatles, à um outro azul que poderia ser um disco de tão redondo  que roda em leituras vi(tr)oladas. Cada canção se conta diverso de verso em prosa tamborilando o que Ana Luisa P.A. Romão retifica em Fica essa noite, pela editora Patuá. Não sabemos por enquanto se as histórias inventariadas por ela são inventadas. O que há é que eu você, leitor, deste álbum azul nunca conseguiremos defini-lo bem como uma experiência de crônica, embora haja muitos trejeitos dos best-cronistas de ontem e de hoje.

 O conto eu não desminto, embora, acho que não devamos intitular a prosa da menina de prosa poética, ela foge desta nomeação como o diabo foge da cruz, pelos menos, acho. Oralidade, sim. Oráculos costumam contar uma certa relação entre verdades e ficções. E por sinal voltando à música, quem nunca usou uma letra para falar de si na primeira pessoa? Luisa põe a tabla numa espécie de tablado, onde a representação é ato de mimese do que pode ter acontecido ou aconteceu. Pois o verso é exatamente este atravessamento que despluga o real da tomada para torná-lo casualmente ficção.  

    

cotação: ótimo

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