“depois vem uma pincelada não muito leve” – 3 Poemas de Flavio Caamaña

 

 

UM CORPO EM DECOMPOSIÇÃO

                                          Nascem/ flores/ dos beijos/ nos teus ombros

                                             António Reis

 

um corpo em decomposição é uma obra de arte

primeiro enrijece depois estufa

depois escurece só depois clareia

depois apodrece depois vai rachando

como se fosse um pedaço de papel

deitado ao léu

 

depois vem uma pincelada não muito leve

não muito intensa

depois vem uma tonelada que vem de dentro

e vem depressa

depois vem uma aquarela um jato de amarelo

um verde que se revela à luz de um sol

pele gruda na pele cabelo gruda no olho

e a boca derrete

 

despontam os ossos e em torno deles

um novo corpo com membros envernizados

um odor de mazela

uma florada de larvas

um banquete uma rodada de fel

e tudo gira em torno o vento passa

regressa e nada é por acaso

gira sem saber que

deve girar

 

 

FOTOGRAFIA DENTRO DE UM LIVRO

 

caberia dizer que ele estava feliz

que antes deste dia tinha ouvido a Palavra

que o seu cabelo bem partido

atestava que não tinha pressa na vida

e que a vida estava

começando

pelos fios

 

caberia dizer que era jovem para o casamento

e que já tinha pensado em coisas proibidas

que tinha muita fé no que lhe ensinaram

que praticava a oração antes de dormir

que a vida estava começando

pela língua

 

poderíamos prever que seria bem sucedido

que seria fiel ao governo

e à família

que brevemente teria uma esposa e quatro filhos

que se ficasse doente um milagre o curaria

de uma doença desconhecida

 

caberia dizer que viveu sem gozo ou ilusões

que só aquela vez tomou uma dose

que tudo era apenas um ensaio

que a fotografia dentro de um livro

sessenta anos depois

nada diria daquela alegria

fingida

 

 

EXAMINAR OS DENTES

                                     Enquanto medito/ um caracol/ passa por mim

                                                                                                  Anônimo

 

o neon desenha um rosto

onde antes havia retórica e hálito e gosto de suco

de fruta sem crivo sem data sem galho

de fruta colhida do colo um ocioso colo

fruta cozida pelo bafo escorrido

de canos de escape na fumaça de mil venenos

de portentosa química de motores gritando

 

de motores atravessando avenidas

ilhas de tecnologia e corrupção a cigarros murchos

da luxuosa manhã sem flores sem espinhos

manhã sem indício de noite

nem possibilidade de paradas cardíacas tranquilas num sono

do dever cumprido e sem autoflagelações

 

de talvez um talco polvilhe as tuas dobras

das mãos calejando o corrimão e isso cansa

gastar os dedos no frio na sudorese de outros

na ânsia sem doçura onde te querem amargo

um poema sem tese sem doutorado

sem um plano de qualquer arquitetura

ou um saneamento básico

 

 

Flavio Caamaña é um trabalhador braçal e poeta nascido em Tamboril, desertão do Ceará. Vivenciou o auge da ditadura, a infâmia e a injustiça. No início dos anos noventa participou como voluntário em campanhas de apoio às vítimas da Aids. Primeiro lugar no XVI Prêmio Literário Ideal Clube De Literatura, participou de coletâneas em livros e revistas literárias virtuais. É autor do livro de poemas Aquedutos (PATUÁ, 2016).

 

 

 

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