UM CORPO EM DECOMPOSIÇÃO
Nascem/ flores/ dos beijos/ nos teus ombros
António Reis
um corpo em decomposição é uma obra de arte
primeiro enrijece depois estufa
depois escurece só depois clareia
depois apodrece depois vai rachando
como se fosse um pedaço de papel
deitado ao léu
depois vem uma pincelada não muito leve
não muito intensa
depois vem uma tonelada que vem de dentro
e vem depressa
depois vem uma aquarela um jato de amarelo
um verde que se revela à luz de um sol
pele gruda na pele cabelo gruda no olho
e a boca derrete
despontam os ossos e em torno deles
um novo corpo com membros envernizados
um odor de mazela
uma florada de larvas
um banquete uma rodada de fel
e tudo gira em torno o vento passa
regressa e nada é por acaso
gira sem saber que
deve girar
FOTOGRAFIA DENTRO DE UM LIVRO
caberia dizer que ele estava feliz
que antes deste dia tinha ouvido a Palavra
que o seu cabelo bem partido
atestava que não tinha pressa na vida
e que a vida estava
começando
pelos fios
caberia dizer que era jovem para o casamento
e que já tinha pensado em coisas proibidas
que tinha muita fé no que lhe ensinaram
que praticava a oração antes de dormir
que a vida estava começando
pela língua
poderíamos prever que seria bem sucedido
que seria fiel ao governo
e à família
que brevemente teria uma esposa e quatro filhos
que se ficasse doente um milagre o curaria
de uma doença desconhecida
caberia dizer que viveu sem gozo ou ilusões
que só aquela vez tomou uma dose
que tudo era apenas um ensaio
que a fotografia dentro de um livro
sessenta anos depois
nada diria daquela alegria
fingida
EXAMINAR OS DENTES
Enquanto medito/ um caracol/ passa por mim
Anônimo
o neon desenha um rosto
onde antes havia retórica e hálito e gosto de suco
de fruta sem crivo sem data sem galho
de fruta colhida do colo um ocioso colo
fruta cozida pelo bafo escorrido
de canos de escape na fumaça de mil venenos
de portentosa química de motores gritando
de motores atravessando avenidas
ilhas de tecnologia e corrupção a cigarros murchos
da luxuosa manhã sem flores sem espinhos
manhã sem indício de noite
nem possibilidade de paradas cardíacas tranquilas num sono
do dever cumprido e sem autoflagelações
de talvez um talco polvilhe as tuas dobras
das mãos calejando o corrimão e isso cansa
gastar os dedos no frio na sudorese de outros
na ânsia sem doçura onde te querem amargo
um poema sem tese sem doutorado
sem um plano de qualquer arquitetura
ou um saneamento básico
Flavio Caamaña é um trabalhador braçal e poeta nascido em Tamboril, desertão do Ceará. Vivenciou o auge da ditadura, a infâmia e a injustiça. No início dos anos noventa participou como voluntário em campanhas de apoio às vítimas da Aids. Primeiro lugar no XVI Prêmio Literário Ideal Clube De Literatura, participou de coletâneas em livros e revistas literárias virtuais. É autor do livro de poemas Aquedutos (PATUÁ, 2016).
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