Três poemas de Thiago Cervan

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A PELEJA DOS MENINOS CONTRA A PROPRIEDADE PRIVADA DA ÁGUA OU DEIXA O MENINO NADAR

meninos não entendem
piscina cheia sem braçadas

nas casas não há água
pia abarrotada, banho de
caneca de volume morto

meninos grudados
na grade suam desejo
frustração

vez ou outra
meninos pulam
a separação e nadam:
lavam a vontade

bedéis não gostam
de meninos. meninos,
dizem, são atrevidos
querem expulsão

piscina só pra sócio

meninos não reconhecem
autoridade e ficam
e nadam e riem

mostram dedo médio
submersos de rebeldia
mergulhados na razão

Não existem rotas conciliatórias de fuga (Editora Urutau, 2016)

 

 

POTOSÍ

*
a prata
da cidade da prata
da pátria sem praia
não reluz
em solo andino
[em igrejas
e cofres além-mar
o destino]

**
na cidade alta
homens nas cavernas
trabalham sob a proteção
de el tio
o livrador
da pedra na moringa
do estouro
do buraco
no buraco

***
na cidade da mina
que mina
a força
dos homens

homens
de um metro e meio
empurram vagões
de uma tonelada e meia
entre entranhas
da montanha

homens
de olhos pretos
cabelos pretos
unhas pretas
dentes pretos
pulmões pretos
rostos pretos
explorados
como os pretos
foram [e são]
por toda américa
habitam a umidade
e a escuridão
[escoram o medo
nas vigas de sustentação]

****
na cidade
de ar escasso
os homens
nas cavernas
continuam a respirar
a abrir túneis
e cavar passagens

mesmo
escondidos sob a terra
soterrados pela memória
e esquecidos pelo sol

Não existem rotas conciliatórias de fuga (Editora Urutau, 2016)

 

 

SECULARES

não há correntes
nos calcanhares
embora correntes
arrastem embarcações
abarrotadas de gente
para o silêncio dos mares
das impressões nas gravuras
às capturas das lentes
praias registram rastros
de afogados e sobreviventes
houveram embarcados
à força do laço;
outros, igualmente forçados,
com passagens
compradas previamente
entre tempos díspares
povos saqueados
enfrentam as fronteiras
da diáspora
seguem em frente
não nadam mais:
no passo a passo
forçam o rebentar
das correntes

Não existem rotas conciliatórias de fuga (Editora Urutau, 2016)

 

 

Mini bio – Thiago Cervan é educador popular e poeta.

 

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