Fernando Andrade entrevista o escritor João Paulo Vaz sobre o livro ‘Os meninos’

Joao Paulo Vaz O meninos - Fernando Andrade entrevista o escritor João Paulo Vaz sobre o livro 'Os meninos'
 
 
 
 

Fernando Andrade –  Relacionar violência ao universo masculino pode nos trazer inúmeros tratados sobre fragilidade masculina, sua carência na infância, competitividade no serviço, mas no seu livro você não mostra e nem ataca estas questões. Você caminha mais para o lado poético, tangenciando ou sublinhando pulsões, ou tensões no masculino, não trilhando nada panfletário. Comente um pouco esta proposta.

João Paulo Vaz – Quando escrevo contos, o que me move não é refletir sobre qualquer questão.
Nesse livro, por exemplo, a violência que perpassa o universo masculino (e, mais especificamente, o padrão de masculinidade imposto à minha geração) aparece muito. É um padrão em franca decadência e torço pela sua extinção, mas, ao escrever, procuro abandonar, tanto quanto possível, qualquer crítica ou reflexão.
Entendo a ficção como uma abordagem lúdica da realidade. E é por ser lúdica, acredito, que pode ser reveladora.

Fernando Andrade –   A ditadura ou violência do estado aparece em muitos contos. Por que usou este leitmotiv para compor os melhores contos da sua produção?

João Paulo Vaz – Eu não diria que é um motivo condutor, mas a sombra da ditadura aparece em muito do que escrevo. Não é uma escolha: vivi sob a ditadura dos 14 aos 35 anos e gostaria, inclusive, de escrever mais sobre ela, porque acho muito necessário, mas o horror dela ainda está de tal forma entranhado em mim que não me sinto capaz de fazer ficção sobre ela. Porque a ficção precisa, para ser criativa, de um toque lúdico que não consigo ter em relação a certos assuntos, como os horrores da tortura. Por isso, a ditadura aparece nos meus contos apenas como um plano de fundo.

Fernando Andrade –   Nada parece desperdiçado na sua estética composicional de produção textual de contos. Pelo fato de ser um mestre da feitura, ensinando alunos na aprendizagem do conto, isto facilita o resultado?

João Paulo Vaz – Infelizmente, não sou esse mestre a que você se refere. Não digo isso por modéstia, mas por ter conhecido mestres e também por ter sido um deles em outra área. Mas minha formação como autor foi fruto de muitas oficinas, tanto como participante quanto como coordenador, e uma das coisas que aprendi em oficinas foi a não ter pena de cortar. Principalmente em se tratando de contos, tudo que sobra atrapalha.

Fernando Andrade –  O conto do crocodilo eu adorei de dar risadas nele.  Não é muito fácil antropomorfizar bichos em comportamentos humanos, ou arquétipos humanos. Como o fez?

João Paulo Vaz – Fico feliz em saber que você se divertiu lendo esse conto, porque também me diverti muito escrevendo. Acho que ele reflete bem o aspecto lúdico a que me referi acima. Sobre o método de criação (se posso dizer que houve um método), acho que, neste conto, inventei o personagem e ele se desenvolveu sozinho.

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