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Fernando Andrade. É impressionante seu apuro técnico através da sua linguagem para descrever as sensações dos sentidos em contato físico com tudo que nos provoca relações com o corpo, entre paladar, tato, audição, olfato, e visão. Como foi esta construção semiológica e semântica.
Michael Gartrell: Eu já havia lido as descrições fenomenológicas de Husserl, Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty; então, já tinha sido exposto a essa forma de escrever e pensar sobre as sensações.
O que surge como novidade, efetivamente, é a cotidianidade, ou trivialidade, dos objetos. Eu quis, de fato, me concentrar em referenciais simples, banais – coisas que todo mundo pintaria facilmente nas lousas de suas imaginações.
E tem mais duas marcas que eu introduzi nesses contos que não encontramos geralmente na tradição: um foco detido nos sentidos menores (i.e., tato, paladar e olfato); e, uma tentativa de refletir sobre a mescla das percepções (i.e., a sinestesia). Construir uma linguagem que envolvesse e ilustrasse essas experiências foi bastante desafiador… Mas o processo de elaboração desse discurso foi muito semelhante ao processo bem-conhecido, notório da escrita poética: é uma criação que parece descoberta, constatação… Eu estou tentando entender sobre o que estou escrevendo no momento em que escrevo. Ou, em outras palavras, eu revelo para mim mesmo o propósito do texto à medida em que o produzo. – É uma enorme vantagem para o leitor isso: ele lê e tem acesso ao jeito que expliquei para mim mesmo o que, primeiramente, era só um vulto na minha cabeça.
Fernando Andrade. A ficção aqui busca não a teoria, mas sim uma poética do corpo, seus fazimentos, seus porque não, cozinhar, o meio; o entorno, aquilo que degustamos,deglutimos, aspiramos, tocamos, experienciamos. Como o ensaio melhorou a forma que usou.
Michael Gartrell. Se houve ensaio, foi puramente biográfico e incidental. Eu usei apenas das minhas memórias para escrever esse livro. Nunca voltei pra vida e fui experienciar algo para retratá-lo nos meus contos. Dessa maneira, meus ensaios foram minhas lembranças – que foram de instantes em que a ideia de uma obra como essa não existia… Então, de certa forma, foi meio estranho colocar tinta no papel, sabe? Eu tive que resignificar, redigerir – redesenhar algumas recordações… E eu não sabia, às vezes, se eu de fato estava lembrando ou se estava inventando…
Acho que, na verdade, essa mistura de memória e imaginação vem recorrendo demais nas minhas últimas composições.
Fernando Andrade. Sua vida biográfica entra como processo de aperfeiçoamento da sua estética poderíamos de gozo. Saborear a vida, tocar lembranças, escutar o passado. Comente.
Michael Gartrell. Eu meio que falei um pouco disso na resposta anterior: minha vida, digamos, surgiu como um espaço laboratorial para esses contos… A existência e a arte têm se entrelaçado cada vez mais na nossa época, né? Está cada vez mais difícil entender ou identificar onde uma acaba e a outra começa… Penso que esse livro espelhe essa mesma tendência: nossas lembranças, nosso passado servem mais e mais como material para nossa manufaturação estética.
Fernando Andrade. Me explica um pouco como é uma filosofia fenomenológica, e como ela colaborou para a formatação do seu livro. Fale mais sobre isso.
Michael Gartrell. Para os fenomenólogos de plantão, eu fiz questão de colocar como subtítulo: “Contos chamados fenomenológicos” – ou seja, eu tenho plena consciência de que isso aqui está longe de ser fenomenologia de fato. Eu não tenho conhecimento nem rigor para tal – nunca e nem quero ser considerado um filósofo… Sou um escritor, um poeta. Para mim, a fenomenologia foi uma base, um palco que usei como ponto-de-saída: esse método só me norteou, me conduziu… Por favor, não considerem esse livro um tratado de fenomenologia – ele não é isso, e nunca se propôs a ser isso…
Ele é um livro de contos com um sabor fenomenológico… Eu quero, sim, descrever nossos sentidos; mas com uma literariedade, uma musicalidade que provém de outros interesses e áreas linguísticas.
Eu quis fazer poesia aqui… Poesia esquisita – mas, poesia, acima de tudo.
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