Fernando Andrade entrevista o poeta Luiz Gustavo de Sá sobre o livro ‘Quatros pares de sapatos’

Luiz Augusto de Sa Quatro pares de sapatos - Fernando Andrade entrevista o poeta Luiz Gustavo de Sá sobre o livro 'Quatros pares de sapatos'
 
 

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Fernando Andrade – Você atravessa certo cotidiano poeticamente, nos mostrando o desarrumado da vida de pessoas cuja precariedade social se estabelece. É uma crítica social. Comente.

Luiz Augusto de Sá – É claro que a crítica social vai existir, explícita ou nas entrelinhas, consciente ou não. Então, é natural que apareçam as dificuldades e desigualdades sociais quando escrevo. Acho que quando a gente atravessa o cotidiano, ele nos atravessa também de alguma forma, especialmente quando ele nos questiona ao pé do ouvido. E, muitas vezes, o nosso próprio “desarrumamento” particular é reflexo disso. Traduzir pequenos detalhes do que julgamos fora de lugar, são a matéria prima da boa literatura.

Fernando Andrade – Neste universo onde o verso é poético mas o mundo capitalista, os looser, ganham força e notoriedade. Comente

Luiz Augusto de Sá – Criou-se um estigma fabricado pelo modo de pensar capitalista de que o sucesso é uma obrigação quase moral, de que se você não é um “case de sucesso”, você é um fracassado, sua vida foi inútil. Esse tipo de bobagem, turbinada hoje em dia pela Internet, é enganosa, sustenta uma ideologia materialista, e traz muita infelicidade e insatisfação. Os chamados “loosers” carregam uma humanidade que a prosperidade material tenta camuflar. Acho-os muito mais interessantes do que os “winners”, pois eles escancaram todos os dilemas importantes que afetam o íntimo do ser humano.

Fernando Andrade – O humor é uma arma contra as injustiças do mundo. Você acha que adota certa mordacidade nos poemas, talvez um jeito ferino, ou isto é contraproducente na sua forma de pensar estes poemas. Comente.

Luiz Augusto de Sá – O bom-humor é algo que desarma as pessoas. É, sim, um excelente elixir contra as injustiças do mundo, pois o bom-humor atrai, diverte, desconcerta, enquanto revela. Eu persigo o humor, mesmo que ele me escape. Às vezes, acho que o humor nem está ali, mas ele aparece depois, quando percebo melhor e penso: onde estava com a cabeça quando escrevi isto? Escrever poesia é um processo interessante que traz muitas surpresas, inclusive para quem escreve. Mas, sim, procuro adotar certa mordacidade nos poemas. Acho que é uma espécie de cacoete.

Fernando Andrade – Como você descreveria sua linguagem para desenhar estes poemas tão fortes e densos? Comente.

Luiz Augusto de Sá – Procuro escrever com simplicidade, mas tomando o cuidado de evitar o óbvio, o lugar comum. De nada adianta escrever de uma maneira acadêmica ou vanguardista demais se isso atinge apenas iniciados, não é meu objetivo. Escrever bem inclui traduzir com alguma inteligibilidade o que é complexo. No entanto, é evidente que devem ser tomados alguns cuidados. Por exemplo, sempre leio os poemas em voz alta para ver se o ritmo está minimamente decente, procuro selecionar as palavras com cuidado, evitar o clichê, enfim, trabalhar de maneira artística, mas sem obsessões. Um poeta é antes de tudo um artesão da linguagem.

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