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Fernando Andrade – Escrever não é um depoimento e, sim, uma confissão, livre de todos os santos, a verdade no luto não existe. Um pouco de invenção, ficção, moldura e modelagem. Li seu livro sobre o luto da sua mãe, recentemente. E o porvir, virá. Fale de seu romance.
Lúcia Nascimento – No romance “Aqui, Ontem”, que está sendo lançado pela Editora 7Letras, tento trazer os leitores e leitoras para dentro da experiência da protagonista, a Alice: ela vive o luto pela perda da mãe adotiva, está imersa nas repetições que um momento como esse causa, e é nesse cenário que ela se questiona sobre tudo que nunca chegará a saber sobre a própria vida. Meu desejo é que, mesmo quem nunca viveu uma perda dessa magnitude, consiga se conectar com o que é vivenciado, experimentado e sentido pela protagonista.
Fernando Andrade – O distanciamento da escrita na terceira pessoa é uma proteção, a escrita continua colada em nós. Alice precisa escrever, o luto é uma escrita para dentro. Como funciona esta relação entre vida-experiência e ofício criativo da escrita, no seu romance.
Lúcia Nascimento – A obra nasce da minha experiência pessoal de luto pela perda da minha mãe. Depois da morte dela, escrevi muitas vezes em diários e em pedacinhos de papel que acabavam espalhados pela casa. Mas o luto causa uma desconexão muito grande com o mundo ao redor. Então, nos primeiros meses, eu não conseguia ler ou escrever nada que fosse minimamente elaborado. Foi só depois de lidar com meu próprio luto que consegui retomar a escrita do romance. Mas, ao escrever a história da Alice, foi inevitável reviver partes da minha própria história, já que o sentimento ali era o mesmo vivenciado por mim. Apesar de não ser um romance autoficcional, emprestei para a Alice sensações e vivências que são também minhas.
Fernando Andrade – Laços não podem ser fundamentados em genética, o labor da convivência e do afeto cotidiano. Filha trabalha o corpo e a linguagem comum da solitude, mesmo depois do fim. Comente.
Lúcia Nascimento – Eu tenho uma irmã adotiva que nunca conheceu a família biológica dela. Mas, se eu tivesse sido adotada, imagino que não conseguiria viver sem realizar uma busca como a de Alice, a protagonista do romance “Aqui, Ontem”… sem ao menos tentar conhecer as histórias que também fariam parte da minha vida, ainda que por um momento limitado da infância. Talvez o que a Alice mais tenha da minha própria vivência é o desejo de conhecer as histórias de quem a rodeia, de conhecer mais sobre a própria história, de inventar o que não é possível saber. O que nos une, autora e personagem, é a própria ficção.
Fernando Andrade – Seu livro, mesmo sendo escrito em prosa, possui uma voz lírica, porque transforma palavra usual em poesia. Comente.
Lúcia Nascimento – Desde o início estruturei a narrativa com uma mescla de temporalidades, porque é assim que entendo o trauma e o luto, como ausências presentes, como um passado que não passa. Para mim, não fazia sentido contar a história de modo muito linear, porque não é assim que um período como o do luto é vivido. A fragmentação e a construção em camadas, além das repetições, eram necessárias para a tentativa de fazer quem lê também se sentir imobilizado, como se vivesse o luto no próprio corpo. Mas falar de perdas, inevitavelmente, traz um tom intimista para a narrativa, o que pode funcionar como uma aproximação entre leitores, autora e narradora.
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