Fernando Andrade entrevista o escritor jjLeandro sobre o livro “mobília humana”

JJLEANDRO  mobilia humana - Fernando Andrade entrevista o escritor jjLeandro sobre o livro "mobília humana"
 
 
 
 

Fernando Andrade – Através do seu ótimo título você por ele define sua obra toda,  traçando um retrato da fauna humana numa cidade como qualquer outra, com fome, miséria, incomunicabilidades, falta de cultura. Fale um pouco sobre isso.

jjLeandro – Realmente, a intenção do nome do livro é mostrar ao leitor que as personagens das histórias, ao menos a maioria, são tratadas como mobília. Todos sabemos que a mobília que perde a funcionalidade é descartada porque apenas tem valor enquanto útil a algum tipo de função ou serviço. Essas personagens são tratadas por outros seres ou pelo conjunto da sociedade tal qual mobília, mas com o agravante de que não são objetos e sim seres pensantes. Isso é brutal, mas de tal maneira é naturalizado em nossas vidas que se faz necessário essa denúncia. E a
faço como posso, pela literatura.

Fernando Andrade – Não vi um perfil nas histórias de cunho psicológico, mas há de você  um senso incrível de observação do drama humano, como uma lente que faz o leitor aproximar da imperfeições dos personagens. Comente.

Talvez por eu buscar mostrar quanto o exterior ao ser, o social, influi sobre sua vida, seus problemas, suas misérias, seus abandonos não trabalhe explicitamente sua vida interior. Embora o exterior influencie na forma como ele pensa e age; mas não trato exclusivamente de seus dramas interiores e seus pensamentos.
Nesses personagens fala forte a tensão constante que lhes impõe a sociedade. E a maneira como ele reage a isso. Se não há uma reação explícita, há um fecho do autor como moral da história.

Fernando Andrade –  Há certo traço afiado como uma ironia, que não é sarcástica, mas que destila cerda mordacidade tanto linguística, quanto de conteúdo. Comente.

jjLeandro – Para mim, a literatura pode ser um meio de denúncia social. Não gosto da literatura bem comportada, aquela que apenas ilustra o senso comum fazendo parecer que o que está naquele texto é a realidade do país. Ou que ainda que não seja assim ignore-a. Já dizia Machado de Assis que há o Brasil real e o oficial, sendo que “o país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco”. Então em meus textos procuro fazer com que a realidade dispute narrativa com a oficialidade.
Recentemente um livro de poemas de minha autoria, “Legítima Defesa” foi finalista do Prêmio Cláudio Willer 2025 da UBE. Tem também a mesma linha de denúncia social e o poema que dá nome ao livro, bem curto, traz a ironia para potencializar a adesão do leitor: “Que crime há/Em matar a fome?/Para mim,/É legítima defesa.”

Fernando Andrade –  Gostei muito do Bibliotecário cego, me lembrou Borges com sua história universal da ficção e da literatura. Comente em específico este conto.

jjLeandro – Sou leitor obsessivo de Borges e da maioria dos autores latino-americanos que se expressam via realismo mágico. Há um acento borgeano nesse conto, não de forma proposital, surge espontaneamente, sobretudo quando estou lendo um autor.
Às vezes uma palavra, uma sentença, desencadeia um poema ou um conto que diverge daquilo que li mas foi inspirado por ele. Há em Mobília Humana um conto, “Sapatinhos de Crochê”, cuja inspiração me foi dada por César Aira, outro autor argentino. E a sentença está em epígrafe no conto: “A água e o ar passamsem deixar rastros”.
Em Bibliotecário Cego, para além da influência borgeana, procurei simbolicamente demonstrar que a velhice e o conhecimento que dela emana não devem ser desprezados, ainda que, como nesse caso, a pessoa esteja cega. Não importa se no conto possa parecer inverossímil a capacidade quase sobre-humana da personagem de manter-se útil a despeito da velhice e da cegueira. Gente não é para ser descartada em hipótese alguma como mobília desconjuntada.

Please follow and like us:
Be the first to comment

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial