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Fernando Andrade – Nunca tinha visto o político não no sentido militante, se misturar tanto à narrativa do pai e do filho morto. Você consegue fazer da história uma relação sempre desejante com o leitor.
Como pensou este romance relacionando o pintor Goya com outro Francisco.
Marcelo Maldonado – Sempre pensei na história e na História como narrativas que constroem a partir de um jogo altamente tensivo de espelhamentos. As questões que nos afligem desde o início dos tempos são basicamente as mesmas e reaparecem na ordem do dia, geração após geração. Confrontados entre si, em maior ou menor grau de importância e visibilidade, personagens, acontecimentos e significados são encarados sob perspectivas distintas e, assim, expõem ambiguidades, contradições. Colocar frente a frente dois “Franciscos” (“separados por dois séculos de
convulsões históricas, de olhares ininterruptos sobre os homens e seu cotidiano de glórias e fracassos”, citando a própria novela) mediados pelo olhar de um pai à procura de sentido para os eventos foi o modo como imaginei abordar essas questões (a busca pela verdade, talvez, a mais central delas).
Fernando Andrade – Há uma série de espalhamentos e rebatimentos entre os dois eventos envolvendo armas de fogo. Como arquitetou estas semelhanças. Comente.
Marcelo Maldonado – A ideia original para a história surgiu da notícia sobre o covarde assassinato de um estudante, baleado por um policial militar. As armas de fogo estão no cerne da banalização da violência cotidiana que nos atravessa, seja em Gaza ou numa comunidade do Rio de Janeiro. Sua utilização em larga escala para promover morte e destruição se deu a partir da Revolução Francesa e das guerras napoleônicas, deflagrando uma crise dos valores iluministas que perdura até hoje. Goya talvez tenha sido o primeiro artista a exprimir com crueza os efeitos devastadores da violência e da guerra, como no quadro dos fuzilamentos do 3 de mayo. Esse foi o mote que me instigou a tecer essas semelhanças, o imenso jogo de espelhamentos da novela no qual as armas de fogo também se inserem.
Fernando Andrade – A relação do pai com o avô de Francisco de certo modo espelha certo distanciamento do
narrador com o filho. Fale desta relação.
Marcelo Maldonado – Algo que sempre me fascinou foi o tema do duplo, o inquietante (das Unheimliche) freudiano, aquele tão semelhante e, ao mesmo tempo, desconhecido de nós mesmos. A busca de conexão do protagonista com o filho (e consigo mesmo) esbarra nesse estranhamento que se encontra frequentemente no vasto universo das relações familiares: pais, mães, filhos, maridos e esposas que partilham de uma convivência tão próxima, mas que, de repente, se revelam estranhos uns aos outros.
Fernando Andrade – Você optou por um texto único sem divisões de capítulos. Por que adotou esta estrutura. Comente.
Marcelo Maldonado – Quando pensei sobre o aspecto formal da novela, achei que um único bloco compacto de texto seria mais condizente com a busca do protagonista, com as idas e vindas do seu próprio discurso, as conjecturas, a perplexidade, o desalento, o tom confessional e até mesmo epistolar com que ele se dirige, por vezes, ao filho morto. Tudo isso tinha que ser “entregue” de um só fôlego, num ritmo quase que vertiginoso, sem pausas, até a última linha. Há nisso, também, influência de alguns escritores contemporâneos, como Thomas Bernhard (se é que é possível chamar de “contemporâneo” um escritor que morreu há mais de 30 anos), que se utilizou bastante desse recurso para destilar em longos monólogos as obsessões de personagens igualmente torturadas por conflitos íntimos.
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