Fernando Andrade entrevista o escritor Joe Sales

Joe Sales - Fernando Andrade entrevista o escritor Joe Sales
 
 
 
 

Fernando Andrade – Você usa certa metáfora da xícara quando intacta referência de gosto, afeto.

Danificada tudo lasca. Será que com a gente acontece a mesma coisa, qualquer imperfeição, desmoronamos emocionalmente. Fale sobre isso.
A xícara é no fundo o nosso próprio espírito. Não diria qualquer imperfeição, noentanto diante de um trauma, de uma traição, sim, o nosso espírito se despedaça,deixando vir à tona tudo que estava contido em nós. O pai de Afonso, por exemplo, aodar-se conta da felicidade de seu filho em amar outro homem, tem sua masculinidade atravessada e quebrada pela ofensa do amor daquele. E foi a parir disso que a xícara foi se desenhando nas demais narrativas que formam esta coletânea. Estes pedaços ilustram as dores emocionais de nosso tempo. Isso, então, acontece cotidianamente conosco.

Fernando Andrade –  A tua concisão, é praticamente perfeita na primeira seção.  Em poucas palavras, consegue uma síntese de reflexão e pensamento. Como construiu estes microcontos.

Joe Sales – Como dito anteriormente, tudo começou a partir de o texto A xícara. A narrativa em sua forma original era longa. Entretanto, após a leitura de Anton Tchékhov – em seu Sem trama e sem final: 99 conselhos de escrita – resolvi cortar sem dó e nesse processo foram nascendo os demais textos, na ânsia de refletir, em primeiro aspecto, a incorporação dos objetos em nosso estado de espírito.

Fernando Andrade-  As relações homoafetivas são muito bem matizadas com a linguagem poética, alcançando uma relação estética com o leitor. Me fale desses contos.

Joe Sales – Todo engano acende uma brecha – última parte do livro – nasceu primeiro. Havia escrito esses contos considerando a ideia de trazer outra perspectiva para os relacionamentos homoafetivos. Para mim um exercício narrativo, pois sempre estive
de corpo e alma presente na escrita de poemas. Os meus primeiros seis livros pertencem ao gênero poético, no entanto, quis me enveredar pela escrita narrativa.
Mas fui deixando fluir, deixando que a escrita organizasse os sentimentos perdidos, como bem apontou Marcelino Freire. O processo quase todo aconteceu no facebook.
Escrevia direto por lá e acompanhava a reação das pessoas: risos, comentários profundos e outros que não chegavam a nenhum lugar. E munido deste sentimento fui escrevendo o que habitava minha memória, o que achei que seria melhor na imaginação e o que poderia roubar das experiências de meus amigos. Também reli uma boa parte da obra de Caio Fernando Abreu, reli Você tem inteira – de Lucas Rocha, reli boa parte de Marcelino Freire e mergulhei nas palavras de Amora, de Natalia Borges Polesso. Os contos, enfim, uma forma de lidar com a sensação dos diversos sentimentos que podem nascer entre dois homens.

Fernando Andrade –  Na segunda parte o dano material da xícara vira uma série de conflitos emocionais numa relação de fratura de trincamento. É a parte mais incisiva do livro. Fale-me dela.

Joe Sales – Em Os abruptos lances da morte, há outro pedaço que se lasca. Outros assuntos são começados e por vezes deixados para que o leitor se decida: juntar os cacos ou não.
Tudo começa com uma forte chuva. E as palavras vão descendo estrada abaixo, desaguando na escuridão de uma casa recém-vendida, num jantar de família em que a desavença não deixa o perdão acontecer, atravessando o desejo de duas mulheres que enebriadas pelo olhar faceiro de um jovem moço se estapeiam e são quase presas, além de outros enredos que tecem a morte dalguma forma. A chuva encerra e nasce uma criança, ou outro símbolo para a morte.

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