Fernando Andrade entrevista a escritora Márcia Barbieri sobre o livro ‘Em-nome-do-Pai’

Marcia Barbieiri 2025 1 scaled - Fernando Andrade entrevista a escritora Márcia Barbieri sobre o livro 'Em-nome-do-Pai'

 
 
 
 
 

Fernando Andrade – Você como poucas escritoras sabem muito bem desmontar os grilhões da estrutura patriarcal aqui ou em qualquer lugar. Como este romance foi estruturado neste mote. Comente.

Márcia Barbieri – A ideia de escrever o romance chegou a partir da releitura do livro do Freud: O mal estar na civilização, em especial nos trechos em que ele explica, simbolicamente, que a sociedade surgiu do incesto e a partir da morte do pai. Na mesma época também estava bastante mergulhada na psicanálise, em especial, na obra do Lacan. Fora esse mergulho nos livros, eu sou mulher, sendo mulher é impossível não sentir o peso do patriarcado, quando não diretamente, indiretamente. Também sou muito atenta aos causos que as pessoas me contam e conheço várias histórias de abuso sexual dentro da própria família, num lugar que deveria ser seguro para a exposição de nossas fragilidades.

Fernando Andrade – O livro como seu só pode funcionar na sua proposta com uma obsessão pela linguagem afiada, cortante, precisa. Nuances, cores, matizes, você pinta com suas veias até um pouco satíricas. Comente.

Márcia Barbieri – Eu sempre comento que tenho muita dificuldade para fazer uma sinopse da minha própria obra, porque em essência eu não escrevo para contar uma história ou para denunciar a sociedade, essas coisas servem apenas como uma espécie de figuração ou talvez como um tipo de pilastra para que o livro não se desmonte durante a leitura. A minha preocupação principal quando escrevo é jogar com a linguagem. Em relação a parte satírica tem a ver, talvez, com a minha paixão por alguns autores que fazem isso muito bem, Miguel de Cervantes, Italo Calvino e Luigi Pirandello. Acredito que o humor e a satírica podem nos levar com maestria ao absurdo da existência.

Fernando Andrade O sexo em sem seu livro é despudorado, obsceno, crítico, amplia as questões sobre sexualidade e de gêneros. Comente.

Márcia Barbieri – Talvez falar de sexo tenha sido uma das obsessões da minha literatura até aqui, não sei como será daqui para frente. O sexo me interessa muito porque embora parece apenas um instinto de sobrevivência, já que se estende para toda espécie animal , ele é o responsável pelas maiores atrocidades da humanidade, se faz quase tudo em nome do sexo. Apesar de ter escrito muito sobre o assunto, ainda não compreendo o porquê o sexo nos desalinha tanto.

Fernando Andrade O tempo no seu romance parece exercer um poder primal sobre os personagens, instintos, impulsos são só canalizados pelo decorrer dos dias da memória, do lastro do eu fraturado. Comente.

Márcia Barbieri – Não passamos de seres rastejantes com memória extensa, parece que fomos premiados com o inferno da lembrança. Não saberia escrever sem fazer com que os meus personagens sintam a mesma angústia que sentimos, passem pelas mesmas agonias que passamos. Não é fácil ser um animal que pensa com a cabeça e age com o instinto, assim como um cão ou um porco.

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