Fernando Andrade entrevista o escritor Elizandro Todeschini sobre o livro ‘Ninguém ouve o sangue’

Elizandro Todeschini 2025 - Fernando Andrade entrevista o escritor Elizandro Todeschini sobre o livro 'Ninguém ouve o sangue'
 
 
 
 
Fernando Andrade – Teu romance tem um ritmo admirável que o leitor se vê prendido pela envergadura da narrativa e tempo preciso de contá-lo. Como foi a elaboração da trama, no seu processo criativo.

ElizandroTodeschini – A trama de Ninguém Ouve o Sangue nasceu da decisão de não seguir uma cronologia tradicional.
Isso foi proposital. A memória, a dor, os silêncios — nada disso acontece em linha reta. Eu queria que o leitor fosse entrando no romance como quem escava camadas, e não como quem percorre uma estrada com placas e destino definido.
As histórias de Melchor e Vitório não se cruzam diretamente, mas dialogam em um nível mais profundo. Existe entre eles uma espécie de simbiose emocional. Um carrega o que o outro vive, mesmo sem saber. O que move o enredo não é a sequência dos fatos, mas a atmosfera comum que cerca os dois, um tipo de ressonância afetiva.
No meu processo criativo, isso exigiu atenção ao ritmo interno da narrativa. Mais do que construir uma trama fechada, eu precisei escutar o que a história pedia — inclusive os silêncios. Essa escolha impacta o tempo do livro: ele avança e recua, hesita, sugere. Porque, para mim, contar essa história só fazia sentido assim — respeitando as rachaduras do tempo e da linguagem.

Fernando Andrade – A linguagem é um fomento à leitura. Todo o vocabulário gauchesco, nos torna seduzido pela estética sonora das palavras. Me fale dessa particularidade linguística.

Elizandro Todeschini –  A linguagem gauchesca faz parte da nossa formação aqui no Sul. Desde cedo, a gente cresce ouvindo os causos dos antigos, as músicas de galpão, os hinos da Revolução Farroupilha, as histórias contadas no fim da tarde, os versos dos CTGs. Mas não é preciso ser campeiro ou frequentador de CTG pra que isso nos atravesse — o gauchismo aqui é algo que está no ar, no cotidiano, como o chimarrão, o churrasco, os fandangos, o jeito de receber, de conversar.
Em Ninguém Ouve o Sangue, essa linguagem aparece com naturalidade porque ela é o modo de sentir e expressar o mundo de muitos dos personagens. Não é uma escolha estilística decorativa — é orgânica. É o tom de voz do sul profundo, que emerge mesmo quando a fala é silenciosa ou contida. E acredito que isso cria uma sonoridade própria no livro, um ritmo que aproxima e, ao mesmo tempo, carrega uma memória coletiva. O vocabulário, nesses casos, não é barreira — é ponte. Mesmo quem não conhece a tradição se reconhece na força dessas palavras, porque elas vêm carregadas de verdade e afeto.

Fernando Andrade – Melchor é um personagem anárquico, quase funciona como um anti-herói. Me conte mais sobre este belo personagem.

Elizandro Todeschini – Melchor é um personagem que escapa de qualquer rótulo fácil. É um professor vindo da Capital, forjado tanto na sala de aula quanto nos porões da ditadura, que carrega no corpo as marcas da luta e no espírito a contradição de quem detesta a violência, mas já precisou empunhar armas. No vilarejo para onde é enviado, ele é ao mesmo tempo farol e sombra: inspira alguns alunos com ideias de liberdade e pensamento crítico, mas também desperta desconfiança por sua postura arredia, seu passado nebuloso e seus gestos intempestivos.
Anárquico no sentido mais humano — não por seguir um credo político rígido, mas por resistir às correntes que tentam enquadrá-lo —, Melchor é um anti-herói que não busca a redenção fácil. Ele é movido por um código próprio, feito de inquietação, compaixão seletiva e um certo desprezo por convenções. Sua beleza está justamente nesse desalinho: não é o “herói limpo” que salva todos, mas o homem imperfeito que, mesmo ferido e cheio de contradições, insiste em ensinar que é preciso “não baixar os olhos”.

Fernando Andrade – Gostei muito do título, ele contém uma beleza quase estranha pelo significado bem figurado. Comente-o perante o todo da obra.

Elizandro Todeschini – O título “Ninguém ouve o sangue” carrega uma beleza perturbadora porque condensa, de forma figurada, todo o sentido trágico e silencioso da narrativa. Ele fala tanto da morte literal — dos animais no matadouro, das vítimas do regime — quanto da morte simbólica — da liberdade, da empatia, da capacidade de indignar-se.
Ao longo do romance, o sangue aparece como metáfora da dor que não encontra eco: o mugido de uma vaca prestes ao abate, o corpo torturado de um preso político, a humilhação cotidiana que vai dessangrando os mais fracos. Esse sangue está sempre presente, visível para quem quer ver, mas o entorno permanece surdo — por medo, por conveniência ou por hábito.
O título é, portanto, um grito abafado. Ele não denuncia apenas um crime, mas a cumplicidade do silêncio. Na economia poética da frase, há a força de um provérbio trágico: não é o sangue que falta, é o ouvido que se recusa. E essa recusa, no universo da obra, é tão mortal quanto a própria violência que se pretende ignorar.

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