Fernando Andrade entrevista a escritora Marta Andrade sobre o livro ‘Carne crua’

Marta Andrade - Fernando Andrade entrevista a escritora Marta Andrade sobre o livro 'Carne crua'
 
 
 
 

Fernando Andrade. Teu romance lindamente possui um fluxo de consciência onde a poética e a linguagem abrem as lacunas da sua história. Não quero dizer que a forma prevalece sobre o que se conta, mas sim desenvolve os processos mentais da narradora deixando o leitor estonteado. Comente.

Marta Andrade. Começo agradecendo as tuas palavras e tuas considerações, de imediato me lançaram num além de minha escrita, e de pronto me fizeram saber uma vez mais, que a escrita que julgo minha me é imprópria, e que só saberei dela e de seus efeitos a partir de um outro que me lê. Assim sendo, coloco-me aqui, ao modo daquele que recebe mensagens em garrafas trazidas de além mar, lançada na vastidão que se abre a partir dessa experiência que me é tão nova e cara de ser lida e ir pouco a pouco sabendo dos efeitos da leitura de Carne Crua, este corpo livro, nos corpos de seus leitores.

A primeira palavra que me tomou em tua consideração, foi a palavra estonteante, e pensei cá com meus botões: Bem, se aquele que me lê fica estonteado, já me dou bem por satisfeita! Causar o incerto da tonteira, não é pouca coisa para uma escrita, já que permite àquele que lê, perder o rumo, mudar de direção, e quiçá perder algo de um pretenso juízo – desajuizar-se. Tomo esta palavra, “estonteante”, em sua múltipla e variada possibilidade de escuta – na mesma linha o fio do aturdido e do deslumbramento. Estamos então a falar de perder-se, de dar um giro ou vários em si, um giro na escuta, e por consequência na vida, e quem sabe por sorte ou descuido dar de cara com a ética do singular dialeto de cada ser vivente e falante. O ser estonteado experimenta no corpo e na língua a subversão das gramaticais regras. Para ficar estonteado é preciso, permitir-se escutar e dizer a partir de um lugar outro, o lugar do estonteamento permite dizer novos dizeres deslumbrados e por isso de um espanto diante do inédito da vida. O assombroso. – Gosto muito daquilo que escapa da sonoridade da palavra assombroso. Bordar com as palavras, dar bordas ao vazio, aproximar-se o tanto que se pode do indizível, e guardar reverência ao mistério daquilo que a palavra não alcança. Meu corpo aquietou-se em sossego quando leu, que você caro Fernando, leu em Carne Crua – nos vãos – aquilo que atravessou as lacunas e as frestas das palavras escritas, e que ao fazê-lo caminhou no fio tênue do deslumbramento e do desconhecido e que se tivermos um tanto de sorte, pode ter lhe feito perder o tino.

Quando você caro Fernando me diz de conteúdos e formas, também me entusiasmo, ainda mais que estas formas deixam a ver o vazio, bordejado por palavras. Confesso que ao escrever o pretendia (deixar esburacada a escrita), mas não sabia ao certo o que estava a fazer. Escrever para mim, é uma experiencia de desconhecimento, de fato minha escrita me é totalmente desconhecida. Algo em mim escreve, exige que me debruce em fazer bordas naquilo que sei que nunca direi, por ser de natureza intocável e indizível. Enfim, gosto de saber que algo em mim que sabe sem saber que sabe, soube deixar passar pelo entre das palavras, aquilo em mim que queria um bem dizer que o dissesse. Uma escrita que escapa pelo vão das palavras me interessa e se o fiz, ainda sem saber que o fazia, fico lisonjeada que você a tenha escutado e nela se perdido.

Sigo interessada em escutar o efeito desta escrita esburacada e que tonteia, em outros corpos leitores. Aquilo que fica de uma leitura, é um fiapo, uma musicalidade – cacarecos daquele que se curvou à urgência da escrita que lhe toma o corpo. E daquilo que resta, de uma escrita, aquele que escreve só saberá num depois, assim como o sei agora através daquilo que você leu. E pudemos saber então, eu e você, que aquilo que se lê em um escrito, são as voláteis, mutáveis e mutantes formas, um sopro, um vento que escapa para além das palavras ou conteúdo..

Fernando Andrade. Descrever o sertão geograficamente, não, mas torna-lo figurado, abstrato, pintura com cores e matizes, onde a narração se faz jogo entre espaços distintos e físicos, planos e contraplanos, dobras de tempo, tudo esmiuçado por escrita envolvente e polissêmica. Fale um pouco deste sertão.

Marta Andrade. Escrever o Sertão, não geograficamente, mas não sem ela – a peculiar geografia sertaneja. O chão movediço das veredas que mimetizam o incerto da vida, e ensinaram meus pés a pisar com leveza e com uma incerta precisão, distribuindo o peso do corpo no vão dos dedos. Os buritizais que me desvelaram santuários milenares, templos a céu aberto e que sustentam o Céu-do-Sem- Fim, das Terras -Sem-Fim. A Serra milenar, que conversou comigo em seu dialeto ancestral e sem palavras e me ensinou a escutar o silêncio, e que nos momentos de travessia me prometeu e deu guarida, tudo isso fez em mim Sertão, e ainda é. Escrever o Sertão não geograficamente, mas a partir de sua geografia. Grafia esta que adentrou em minhas carnes inevitavelmente à medida que adentrei em suas areias quentes e multicoloridas, até que aprendesse a ler sua geo- grafia – escritos milenares em terra e rocha e areia, até que o sertão escrevesse em mim algo de sua vastidão, luta, resistência e silêncio. Até que de mim saísse o som numinoso do esturro da terra e dos seres de patas. O abstrato do Sertão experimentei a cada vez que meu corpo se viu tomado pelo calor ininterrupto dos dias e das noites, causando um estado entre o inebriado e o torpor, criando no horizonte o onírico das paisagens tremeluzentes pelo quente das areias subindo em direção ao céu azul- sem- fim, fazendo que o azul- sem- fim virasse um nome de cor e um estado de alma. O Sertão me devorou, e eu em ato de geofagia o devorei também, mastigando-o vagarosamente, em consonância a Tempo Velho, tempo-espaço onde vivem as memórias e os saberes daqueles que vieram antes. Em outros momentos, o devorei em grandes e indigestos bocados, quando as dores e cruezas do viver silenciado das comunidades quilombolas, submetidas a séculos de colonização me rasgaram a carne em histórias de escravidão contemporânea.

O Sertão conversou comigo, e foi ali, através de sua geografia e sua gente. O Sertão cantou para mim em cantigas e saias de chita que rodam, fazendo girar a roda da vida, quando nada mais parece possível. O sertão se inscreveu em minha carne, e ele é a geografia inexata da Vida, o Sertão é a passagem móvel e a paisagem movente onde acontece a Vida, em seu incerto e descontinuado acontecer. O Sertão é a terceira margem, são as acontecências da vida para além das polarizações, é a possibilidade de ir além, para longe do isso ou aquilo, em sua dualidade. O Sertão é fazer com o desencontrado da vida bordando com as linhas do possível, sem que isso lhe tire a beleza e a força.

O Sertão para mim é a desconhecência, a alteridade radical, que me lançou e me lança para um além do imaginado e sonhado de quem eu supunha que era ou viria a ser, abrindo o caminho para o inédito em mim e na vida. O Sertão é o vazio e o silêncio de onde é possível inventar uma vida outra, e se bons ventos de lá soprarem, um mundo outro.

Fernando Andrade. O leitor é uma escuta neste livro, até pela falta de diálogos entre personagens. Como foi o processo de criação para ter esta linha aberta de “voz” vamos falar por terapêutica. Comente.

Marta Andrade. Escrever é algo que me escapa, não escolhi escrever, o faço em obediência a algo em mim que se impõe. A escrita me toma, e a única possibilidade que resta e me curvar a ela. Foi assim de forma crua e sem saber o que escrevia que escrevi, não havia a pretensão de escrever um livro, os escritos é que foram querendo virar livro. Em 2022 ao terminar minha análise, tenho como ofício a psicanálise – a lacaniana – sai do divã com uma pergunta em aberto, como um apontamento de direção a sustentei, sem pretensão de fechá-la. A pergunta era o que fazer de meus escritos, escritos estes que eu mesma nomeei num tempo passado, de escritos de alcova. Hoje escuto que neste nome, já despontava uma possível direção, dar a eles a cova, cavar em terra funda o fecundo espaço para que seguissem o destino que lhes era próprio. Desdisse um pouco e agora volto a tua provocação, você diz: a linha aberta por onde sai a voz da personagem. É preciso que algo que se quebre no correr das palavras, que algo da lógica se perca, para que a linha aberta da voz encontre outros sulcos, outras possibilidades de dizer. Em Carne Crua a protagonista se vê diante do inédito de uma vida, a experiência do nunca vivido, vai se avolumando no dia a dia, rompendo o fio do conhecido, afetando-lhe a carne, e a língua. A incidência do assombroso, do estonteando, do inusitado faz com que a linha fechada da voz e dos dizeres se abra, se solte, que permita um salto, o salto para o desconhecido da língua e é desta linha solta e aberta, que a mulher do espelho, protagonista de Carne Crua, passa a tecer sua leitura de si e do mundo. Lembro-me agora, enquanto escrevo dos koans, aquelas pequenas narrativas zen budistas, que desafiam a lógica, que lançam o leitor e seus personagens para o assombro do fora do imaginado – rompe-se a linha, salta-se sem garantias para o não lugar, o nonsense.

Penso aqui que temos a possibilidade de aproximar os Koans, estas pequenas historietas que acabam no nada, aquilo que se propõe no percurso de uma análise lacaniana e se tudo correr bem se firmará ao final dela, e a escrita de Guimarães Rosa, nesta tríade que agora tento alinhavar em uma incerta aproximação, o assombro do inesperado lança o vivente, num para além de quem se supunha ser, do que se achava que era ou deveria ser. O romper com o conhecido, o fora da lógica, tem como efeito a experiência do inédito. Ora o que é o inédito senão aquilo de que não se tem referências, a linha aberta por onde a voz de cada ser falante pode deixar sair sua história em uma construção outra, um des-ser, um vento contrário que se nos lança na experiência do estranho, do estrangeiro em si e no mundo.

A escrita de Guimarães Rosa, nos lança neste inusitado da língua e por isso ler sua obra nos desarranja, a todo tempo somos desafiados com seus inesperados arranjos e construções linguageiras. Numa análise lacaniana também há uma convocação ao desarranjo, na leitura de si e da narrativa que se consolidou da vida daquele que se propõe a escutar-se em análise.

É preciso gastar as palavras e narrativas até que a linha onde se pendura a voz do vivente se gaste, se rompa e de tão aberta que fica, deixe sair a nova língua, dialeto singular e único de cada ser vivente, rearranjado na gramática do desejo.

Fernando Andrade. O corpo da palavra no seu livro talvez não seja sexualizado, mas recobre certas pulsões instintivas, sobre destino, origem. Comente a observação.

Marta Andrade. Caro Fernando, ao ler tuas palavras, as leio de um lugar outro onde o corpo da palavra que escreves, me lança ao corpo tecido pelas palavras. Ora ao nascer somos apenas um pedacinho de carne, crua e cheia de sensações desconhecidas, pouco a pouco esse corpo vai sendo dito pelo outro, e sendo banhado pela língua, iniciados na linguagem, sempre de um outro. É preciso que em algum momento, nos descolonizemos do dizer do outro, ainda que isso se dê a partir do dizer deste outro.

A palavra tece o corpo, dá a ele contornos, mais ou menos móveis, conforme cada um suporte o tanto de vida e desconhecência que se consegue experimentar na carne que se tem.

A palavra alinhava corpo e pulsão, corrente ininterrupta de vida morte. Não há como fugir desta linha dupla que tece a vida e ao fazê-lo inexoravelmente tece concomitante a morte. Assim como ao bordar o direito, se tem o avesso daquilo que se borda, e um sustenta o outro e um é o outro sem sê-lo. Agora mesmo que escrevo estas palavras, me delicio e me assombro com as novas sensações e arranjos que se inscrevem em minhas carnes, em iniciação de um novo arranjo das pulsões, neste território sempre e sempre desconhecido que é o corpo.

É preciso uma certa dose de coragem para entregar-se a estes rearranjos no corpo. Permitir ao corpo território linguageiro, novas possibilidades de dizer-se, em novos arranjos pulsionais, autorizar-se ao modo das veredas, que as palavras fluam em passagens móveis e moventes de si.

Sermos passagem móvel, paisagem movente por onde corre a vida e a morte, num corpo onde pulsa a erótica da palavra.

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