Fernando Andrade entrevista a escritora Marcela Fassy sobre o livro ‘Abafada’

Marcela Fassy - Fernando Andrade entrevista a escritora Marcela Fassy sobre o livro 'Abafada'

Abafada (Editora Reformatório, 2025) – Livro vencedor do Prêmio Caio Fernando Abreu 2024

 
 
 
 
 
 

Marcela Fassy nasceu em Belo Horizonte, em 1984. É historiadora (UFMG), Especialista em Artes Visuais (Senac/MG) e Mestre em Ciências Humanas (UFVJM/Museu do Louvre). Trabalha como arte-educadora no Instituto Brasileiro de Museus. Seu livro de contos As Putas Escrevem (Urutau, 2024) recebeu menção honrosa no Concurso Nacional da UBE/PB. Foi finalista do Prêmio Internacional Pena de Ouro com um conto integrante do seu livro Oniros (Urutau, 2022).

 
 
 

Fernando Andrade. A asfixia parece ser um tema que ronda o seu romance, e dentro da sua voz de narrar você adotou um estilo bastante tenso e claustrofóbico. Como você projetou esta voz. Comente.

Marcela Fassy. Procurei desenvolver essa voz de forma que ela transmitisse o processo de colapso nervoso que a personagem-narradora atravessa: um fluxo de pensamento caótico, fragmentado, desordenado, uma voz abafada, enfim. A asfixia, no romance, é metáfora das condições subjetivas que sufocam a narradora mas é, também, um aspecto importante da experiência corporal desta personagem que, literalmente, não consegue respirar. Então, eu precisava transmitir isso para o leitor através da linguagem. A escrita precisava, de alguma forma, transmitir para o leitor uma experiência corporal de sufocamento, de falta de ar. Afinal, a gente escreve e lê com o corpo, não é? A forma que encontrei, finalmente, foi essa voz entrecortada, interrompida pelos parênteses-alvéolos, os pensamentos fragmentados, desconexos, de alguém que não consegue pensar nem respirar direito.

Fernando Andrade. A imagem que percorre o seu romance: o coração, é descrita de forma quase anatômica usando termos da medicina legal. Como foi esta apropriação tão romântica dentro da poética do órgão, para algo mais cru e realista. Comente. 

Marcela Fassy. A escolha por explorar o órgão de forma crua e realista foi, além de uma opção estética, uma recusa, dentro da própria linguagem, do ideal de amor romântico. Se pensarmos por uma ótica de gênero, o modelo de amor romântico é algo que, numa sociedade patriarcal e heteronormativa, serve para encarcerar, para abafar as mulheres. Além disso, eu gosto desse contraste entre o poético – o coração como metáfora/metonímia do amor e das relações amorosas – e o órgão anatômico, músculo que bombeia o sangue, que tem algo de brutal. É uma imagem visceral, corporal, que converge com a voz narrativa e com a proposta de pensar as relações entre corpo e linguagem.

Fernando Andrade. Não sei se você concorda, vi, ouvi ecos do autor irlandês, Samuel Beckett, uma voz dentro de um foco vazio,  que procura através da linguagem, e através dela um não sentido ou até sentido para sua existência.  Comente.

Marcela Fassy. Beckett é um autor que amo e que sempre me acompanha. Não me lembro de ter recorrido a ele de forma consciente no processo de escrita deste livro em especial, mas certamente faz parte do meu repertório subjetivo. O mundo visto como um lugar sem sentido, as personagens em uma condição de desamparo e que, ao mesmo tempo, tentam seguir adiante com os recursos que têm, porque não há outra opção – isso é algo que me interessa enquanto escritora e ser humano, e algo que permeia o cenário de Abafada e a forma como a personagem constrói o discurso-desabafo. Um cenário claustrofóbico – seja ele um banheiro onde a personagem fica presa, ou um quarto escuro e quente – pode ter algo do cenário desolador de “Fim de jogo”, ou do monte de areia onde Winnie está enterrada, imobilizada, abafada.

Fernando Andrade. Me fale um pouco da apropriação do parênteses, eles funcionam para alguma resposta do leitor. Como os usou figuradamente. 

A ideia de escrever um livro entre parênteses me veio de uma amiga, que estava escrevendo uma tese de doutorado e comentou comigo que escrever era abrir um grande parêntese no meio da vida, que fica em suspenso enquanto a escrita acontece. Essa ideia me remeteu também à falta de ar, à necessidade de prender a respiração e tomar fôlego
para escrever. A escrita como mergulho, num sentido corporal. A ideia do texto como algo inserido numa atmosfera particular, rarefeita, diferente da atmosfera da vida comum, “real”. Daí a ideia de usar os parênteses como um recurso visual, gráfico, e que também remetesse ao processo físico e corporal da respiração entrecortada e dos pensamentos fragmentados da narradora. Ela não consegue concluir um pensamento, então a linguagem se torna descontínua e ela vai abrindo vários parênteses…

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