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Fernando Andrade. Você atravessa nos seus poemas do coloquial ao erudito, repaginando a cidade do Rio com infinitos olhares, do estético ao informativo. Como foi esta lapidação dos versos? Comente.
Nuno Rau. Penso que minha inquietação na escrita de poesia está na articulação entre estética e política, e na medida em que essa inquietação remete a uma tensão cada vez mais presente, busco que a tensão se expresse em cada poema, na unidade indissolúvel entre forma e conteúdo, de tal modo que cada poema seja um conjunto de camadas que, se operam em conjunto, possam também ser destrinchadas por quem lê, como quem desmonta um dispositivo e, deste modo, passa a entender melhor os meios pelos quais ele funciona (camadas lexicais, sintáticas, semânticas, temáticas). O uso de determinados procedimentos formais (enjambements abruptos e recorrentes, fragmentação, polifonia, mudanças de ritmo e andamento) performa essa tensão. É neste ponto que, nas minhas pesquisas, entra a contaminação recíproca da fala comum, a fala do dia a dia, o poema como conversa, com o erudito, as referências, a filosofia. Acho que em alguns anos atrás percebi que tomei esse caminho por me parecer que a maioria esmagadora das classes médias e das que lhe são superiores não tem sofisticação intelectual (e sensível) necessária pra compreender formas da arte mais elaboradas e reflexivas – que são, como sabemos, valores modernos da alta cultura escrita, e que já foram valorizados por essas elites no começo do século XX. Nesse sentido, tem me parecido que, também no campo da cultura, antigas causas e efeitos se descolaram. O que pode residir numa eventual adesão atual desses membros das classes favorecidas a obras sofisticadas esteticamente não passa de uma reedição fake do “bom gosto” oitocentista, sem uma compreensão profunda do que está em jogo nas obras – o debate do que é conteúdo e forma reais passa ao largo. A sofisticação continua a ser um signo da distinção, e poucos percebem que ela passa a ser uma espuma subversiva depositada sobre a superfície da escrita. Numa outra parte deste território, as classes médias, capatazes (para suavizar poderíamos dizer operadores, mediadores ou administradores) de quem detém a maior parcela de capital circulante, estão com suas antenas focadas nos produtos de carregação da indústria cultural, e niveladas com as camadas que abominam (as bolhas em que circulamos são só isso mesmo, bolhas isoladas e divergentes). Acho que esse fenômeno ocorre porque, principalmente depois da tomada de tudo que se move pelo neoliberalismo, vale mais (em todos os sentidos, o que inclui o capital simbólico) o que vende mais, e vende mais o que é mais digerível, fácil, imediato, que não provoca reflexão (na poesia há outras formas de realização deste capital simbólica, que não vêm ao caso aqui). Sem relação com os produtos da indústria cultural, mas capturadas pela mesma lógica, as escritas agora autodenominadas marginais são sintoma disso, porque viraram branding, tornadas produto, e depois lidas por uma parcela que se satisfaz com a constatação decorativa da desigualdade, sem que isso se torne vetor de mudança das coisas. Por conta destas capturas é que, contraditoriamente, a sofisticação se torna peça de resistência (evitei a ironia de escrever a expressão, aqui, em francês), e insidiosamente carrega minas terrestres móveis para dentro do território inimigo. Essa longa resposta é para dar uma ideia de como os versos são pensados – mas preciso dizer que também são pensados como se anda de bicicleta: está na musculatura, no jeito de corpo, as reflexões acima integram e dirigem a mão sem que o pensamento esteja costurando um argumento, porque se trata de poesia, e não de teoria.
Sobre repaginar a cidade, não sei. Não penso que o projeto “Prosa da cidade” repagine nada: ele no máximo reflete sobre os diversos modos como o território é configurado em nossa cidade, e procura conversar com os espaços-entre, espaços-marginais, espaços-outros, fugindo ao cartão-postal, à marca “cidade maravilhosa” – e os poemas falam sobre lugares de minha memória afetiva da cidade-maravilhosa-desencantada que é o Rio de Janeiro. Como tenho histórias pessoais espalhadas por quase todos os seus bairros, os poemas, quando se debruçam sobre essas memórias e tentam costura-las, são uma tentativa de compreensão dos processos que nos ligam aos espaços, processos históricos, políticos, econômicos, existenciais, e, mesmo quando algo de cartão-postal aparece (como o bairro de Copacabana), é por uma face pouco reconhecível, não exatamente pensada pelo senso comum, é um desejo de interpretação que se rebela. Esse gesto tem uma longa tradição, de Baudelaire até os rappers, passando por Mário de Andrade, Oswald, Drummond, Roberto Piva, Eudoro Augusto, muita gente que apoiou sua poesia sobre o asfalto e o concreto das cidades, sobre cidadãos anônimos como nós, e procuro, nos meus limites, dar um pequeno passo nessa direção.
Fernando Andrade. As fotos contêm informações que, de um modo sutil e detalhista, entram no poema, e não de forma enviesada, mas subliminar. Como você relacionou foto (imagem) e texto?
Nuno Rau. As fotos são capturas feitas com meu celular enquanto circulo pela cidade. Chamo de fotos sujas porque não há nada de técnica, nenhuma busca de melhor ângulo ou efeito de captação da luz. É um olhar bastante cru sobre os espaços urbanos e seus objetos, tentando por essa via investigar a nossa relação mais imediata com a cidade – da apreensão de espaços maiores até o recorte de pequenos detalhes, como um cartaz rasgado sobre um muro, uma inscrição no meio-fio. Acontece que o olhar de quem fotografou é o mesmo de quem escreveu, por isso inquietações similares atravessam os dois suportes, e acabei percebendo que a mesma narrativa percorria fotos e poemas, se organizados de uma dada forma (que não é cronológica, nem exatamente temática). As partes do livro são como unidades de pensamento que, me parece, conseguem tornar a articulação entre poema e imagem algo tenso, vivo, que faz com que as duas parcelas da equação sejam dinamizadas – e para isso o trabalho de Alessandro Romio foi fundamental, ele percebeu a fundo a relação poema-imagem em cada caso, e fez um trabalho de montagem e diagramação impressionante, fazendo com que a página enquanto espaço participe da construção do sentido.
Fernando Andrade. A cidade degradada pelos engradados – vamos sugerir um símbolo do capitalismo, a Coca-Cola – você desmonta e desconstrói em poemas-painéis toda a ruína doutrinária do liberalismo econômico. Comente.
Nuno Rau. Toda cidade é um palimpsesto de ruínas, paraíso de arqueólogos, sempre há algo escondido sob o chão que pisamos, partes de passados, modos de vida soterrados, cacos de tudo, violências diversas. Vamos imaginar um filme produzido pela Netflix sobre favelas do Rio de Janeiro. Um filme assim seria um produto, mas tornaria visível a violência estrutural. Só que tornar visível a violência estrutural acaba sendo apenas mais uma ferramenta para naturalizar/ normalizar a violência. Se a denúncia efetuada pelo filme tivesse efeito, as pessoas tanto mais se indignariam quanto mais pessoas sem-teto vissem pelas ruas. Pessoas não contarem com um teto para dormir, e terem que morar na rua das grandes cidades é uma das mais cruéis violências promovidas pelo sistema, e, no entanto, as populações urbanas passam por elas como que anestesiadas. Deste modo, não é algo tão simples e direto que, quando absorvidas pelo sistema, as formas a priori contestatórias abrindo fissuras no sistema de modo produtivo, prontas a gerar algum tipo de resultado prático. Num outro exemplo, quando questões identitárias viram branding, o excesso pode simplesmente evaporar antes de virar linha de fuga. Aqui entra o fato de as elites financeiras (e alguns governos, como seus administradores) incentivarem e patrocinarem, por exemplo, o funk ou o rap, e haver uma fusão entre a superfície do fenômeno e a superficialidade (estética, existencial) que se tornou própria das elites e das classes médias todas, de tal modo que a potência sonora e simbólica do funk e do rap passa a ser um dos códigos destas outras classes (e não só da que lhe deu origem), e a potência do corpo passa a ser reproduzida (em superfície) pelos jovens filhos dos que detém o grosso da renda e pagam menos impostos, pra não esquecermos do debate do momento (deixo claro que acho o funk e o rap fenômenos muito interessantes em si, o que me incomoda é a apropriação seletiva e superficial). Um outro fenômeno que presenciei: jovens de alta classe média pagando grafiteiros por grafites nas paredes de seus quartos: o que era contestação virou moda remunerada a ser degustada por uma minoria – a resistência virou commodity. Então, jogar o jogo sabotando por dentro é uma hipótese, mas esses meios são quase impossíveis de enxergar de dentro da névoa do presente, para usar uma expressão de Agamben no ensaio “O Contemporâneo”. Uma hipótese seria manter a complexidade estética dos poemas, mas criando camadas das quais a mais aflorada seja de mais fácil compreensão e seja vista como potência de não assimilação, com utilização de parte dos códigos das identidades emergentes – e é isso que tento fazer nos poemas.
Fernando Andrade. Há algumas citações e referências a poetas da modernidade. Como trabalha esta costura de nomes-poemas?
Nuno Rau. A poesia brasileira dos anos 1960 até o presente é um campo de descontinuidades, uma totalidade fragmentada. Eventuais continuidades são episódicas, parciais. Penso que, principalmente, a poesia dos anos 1990 demarcou um corte profundo, porque, em larga medida, virou as costas para as pesquisas que vinham sendo feitas nos poemas até então, e se voltou para outras tradições: a norte-americana, a francesa e a inglesa – em paralelo à maciça adesão a certo viés cabralino da poesia, que virou algo como, nos piores casos, o cacoete da geração. Talvez a linha tênue entre traduzir e tornar-se tenha sido rompida naqueles anos, num sentido inverso da antropofagia que era uma marca nossa, que, curiosamente, em oposição à poesia, marcou o BRock entre os anos 1980 e 1990. O processo de voltar-se intramuros (da universidade) também se acentuou, e a maioria dos poetas que despontava vinha dos cursos de Letras, de tal modo que o diálogo ficou em grande parte circunscrito a esse ambiente, vertente que foi rasurada – mas não eliminada – só com a posterior explosão dos blogs. A poesia brasileira recente, filha destes breves anos 1990, absorve e reconfigura elementos de diferentes tradições, resultando em hibridismos e misturas adúlteras de tudo, o que evidencia uma descontinuidade abrupta das proposições estéticas de antes. O projeto de “Prosa da cidade” (assim como foi o de “Mecânica Aplicada”, de 2017) busca fazer uma pequena ponte com alguns traços que, penso, foram deixados no caminho: o modo reflexivo de ser político de Drummond (penso aqui mais em “Claro Enigma” do que em “Rosa do Povo”), o retorno do [soneto] recalcado em Cabral (lembremos que ele negava o soneto, mas dele fazia uso de forma crítica e transformada/deformada), o abismo entre o físico e o metafísico em Murilo Mendes, a psicodelia ritmada de Jorge de Lima, e todos esses fios de tradição reprocessados pela geração dos anos 1970, que não era apenas uma geração que redescobria o poema-piada oswaldiano, mas uma miríade de tendências contraditórias – e muito ricas – mal costuradas sob o rótulo de “poesia marginal”, basicamente por conta dos modos de distribuição alternativa das edições manufaturadas, como contracorrente ao mercado estabelecido – editoras e livrarias. São vozes muito diferentes e que apontam para caminhos profundamente distintos, como Roberto Piva e Antonio Carlos Secchin, Cacaso e Geraldo Carneiro, Cacaso e Ana Cristina César, Chacal e Francisco Alvim, e por aí afora. Penso que meus poemas conversam, alguns mais explicitamente que outros, com todas essas vozes. Não é nada original, outras vozes têm buscado caminhos similares, e penso que isso enriquece o debate e a forma como a poesia conversa com a História. Mas claro, nada do que disse até agora é receita: são inquietações que penso que atravessam meus poemas, e convidam quem lê para que também se inquiete.
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