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Fernando Andrade. Seu front não é uma fronteira para passar onde lados, passagens, personagens pulem para lá e pra cá. Você se joga no palco das emoções familiares. Revistar seu Eu lírico, misturado ao eu Ego, deve ser um exercício e tanto. Fale um pouco sobre este livro.
Lisa Alves. Sim, me joguei. Não havia outro modo de escrever. Jardim de Pragas nasce desse impulso incontrolável de revirar os restos da casa. Quando digo casa, é o que chamo de território íntimo: memória familiar, memória do corpo, do inconsciente… Herdei vozes que não foram ouvidas. E precisei criar esse livro como um campo de escavação.
Uma das epígrafes “Quero lhe contar minha guerra…” sintetiza muito o livro. É uma convocação para a escuta. Ela ecoa o trabalho de Svetlana Aleksiévitch, que em “A guerra não tem rosto de mulher” registra uma outra versão da guerra pelo testemunho de mulheres. O meu front, no entanto, não é o da guerra formal. É o da guerra silenciosa que acontece no interior da casa. E me coloco ali como vivente e testemunha.
Já em termos estruturais, talvez meu livro dialogue muito com Paisagens humanas do meu país, do poeta e dramaturgo turco Nâzım Hikmet. Ele escreveu um livro durante a prisão composto por cerca de 20 mil versos. Nâzim, nesse livro, transformou um trem em uma narrativa poética retratando pessoas comuns da Turquia. E sua poética se misturou com a linguagem de diário, de ensaio, de teatro, de roteiro cinematográfico, de conto, de
reportagem, de emissões radiofônicas. Jardim de Pragas tem uma estrutura semelhante.
Fernando Andrade – Em poesia na minha opinião, a sinceridade, pode vir camuflada, de auto-poética, mas você sublima sua voz numa outra talvez mais teatral, não no sentido de performance, mas de autenticidade. Comente.
Acredito que a sinceridade mais radical é polifônica. Porque a dor não fala com uma única voz. Quando comecei a escrever esse livro, percebi que o “eu” era insuficiente. Eu sozinha não dava conta. Era preciso convocar as outras: as bisavós, as avós, a mãe, a tia, a menina que um dia fui… Todas que vieram antes e todas essas vozes aparecem na minha escrita como se entrassem em cena.
É interessante pensar que a linguagem do testemunho é atravessada por pausas, hesitações, silêncios, metáforas. Sobreviventes não falam como quem narra. Eu também precisei criar essas dobras de linguagem. Em vez de dizer “minha dor foi essa”, optei por dizer “queria ser a Mosca do Cronenberg”. A imagem monstruosa fala mais do que a confissão.
E essa teatralidade vem do meu trânsito pelas artes. Eu bebo da música, do cinema, da performance, do teatro, da videoarte com seus ruídos diversos. Cada poema foi composto como se fosse um cenário de um filme ou um teatro experimental. Há cortes bruscos,
trilhas em ruído, diálogos internos, vozes em coro. Mas tudo isso não anula a realidade. Ao contrário: me permitiu dizê-la de um modo suportável e muito mais interessante.
Fernando Andrade. Como a Bíblia, e seus personagens te ajudaram a servir de mimeses para sua partitura bio-musical. Comente.
Lisa Alves. A Bíblia me acompanha desde sempre. Cresci estudando os testamentos e ouvindo versículos antes de dormir. Mas o que me interessou para a construção de Jardim de Pragas não foi a fé institucional. Foi a estrutura narrativa. Quando pensei o livro, soube que ele precisava ser guiado por uma partitura bíblica invertida.
Em Jardim de Pragas, a estrutura é de Êxodo, mas a travessia não é triunfante. Não tem heróis e heroínas nessa poética. O mar não se abre. Todas as personagens são minhas ancestrais que morreram sem realizar seus mínimos sonhos. Foram mulheres que existiram para a manutenção de uma engrenagem exercendo a função social e capital de reprodutoras e cuidadoras de vidas. A estrutura subverte a partitura bíblica para expor os dispositivos de uma colonialidade que se enraizou no corpo da mulher, como descreve Silvia Federici em Calibã e a Bruxa, onde a colonização começa também pela imposição de um corpo-fábrica.
Eu transformei esse lugar familiar que é a casa, e tudo o que sobrou dentro dele, em uma travessia sem destino. O eu-lírico se movimenta e carrega essa casa no corpo. É uma travessia que, paradoxalmente, não leva a lugar nenhum. A casa é um peso gigante e não permite muitos movimentos. É uma anti-travessia. Minha épica é anti-épica. O texto poético é um ciclo de eterno retorno. O eu-lírico está mais para Sísifo do que para Moisés.
Fernando Andrade. Fale um pouco da linguagem adotada no seu livro, ela não vai ao infinito poético, mantém certa oralidade ficcional. Comente.
Lisa Alves. Eu quis manter o texto vivo. Como quem fala. Como um monólogo teatral. Como alguém em uma sessão de terapia ou como quem deixa uma confissão gravada. Eu não queria voar para o “infinito poético”. Quis escavar a terra. A linguagem do livro se constrói entre as falas da minha avó, da minha bisa, da minha mãe, da minha tia, de trechos de canções, de fragmentos de cartas, de cenas de filmes, dos prognósticos ambientais, das relações com a vizinhança, dos imperativos categóricos, das minhas relações amorosas, das falas interrompidas...
A oralidade ficcional que você aponta é resultado disso: a poesia aqui não é para ser recitada com solenidade, mas para ser ouvida no corpo. Ela fala como quem conta um segredo, ou uma notícia urgente. Tem cortes abruptos, diálogos, repetições que são quase rituais. É uma escrita que se move entre a escrita e a voz. E talvez por isso ela dialogue com a montagem do cinema, com a estética teatral, marcada pelo exagero e pelo contraste; ou com a tessitura das canções populares.
No fundo, cada poema é um campo de escuta.
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