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Fernando Andrade. Você bate tão bem o intertextual com imagens belíssimas sobre mitologia, criando não sei se uma fusão, ou seria uma harmonia combinatória. Fale um pouco destes processos textuais.
Katia Maciel. Me aproximei bastante nos últimos anos da poesia antiga povoada pelas disputas emaranhadas entre os deuses. Em Praia a pino reuni alguns poemas que assumem estes conflitos como jogos da linguagem. Os personagens míticos funcionam como presenças que manifestam o que se mostra e o que se esconde, no que se diz, no que silencia, no movimento dos corpos. O posfácio atento e divino da Danielle Magalhães ressalta o papel do mito de Eva no que chama de língua evânica. A Eva de Praia a Pino possui um humor muito particular e crítico.
Fernando Andrade. O efeito da montagem cinematográfica é nítido no seu trabalho. São versos quase frames de cenas que você faz muito bem, o corte seco, e exato nas dobraduras. Comente.
Katia Maciel. O cinema pode mesmo ser o pensamento em movimento. A influência das operações cinematográficas é flagrante em tudo o que eu faço. As quebras dos versos muitas vezes operam exatamente como o corte seco na montagem de um filme. Também o que se chama de faux-raccord um corte na imagem que parece enviar para um lugar e chega a outro. Estas formas já estavam presentes na pintura e no romance antes do início do cinema, mas o hábito das imagens em movimento contaminou completamente a nossa percepção. Além da insistência que há nos poemas do efeito de montagem, também penso o livro como um longo processo de edição das imagens. Em particular uso a elipse como modo de construir a escrita como um sonho, com brancos e cortes na possibilidade narrativa. O tom de alguns poemas beira o surrealismo.
Fernando Andrade. Há uma variação sobre o tema do mar, ele se infiltra muito bem no conjunto dos poemas. Fale do tema como pode repercutir no decorrer do livro.
Katia Maciel. Em Praia a pino o mar chega literalmente ao primeiro plano. O título surgiu de um poema, mas quando o escolhi pensei que precisava escrever outro com o mesmo título para pensar melhor, acabei escrevendo seis e os seis entraram no livro como uma marcação rítmica, como se a praia estivesse sempre lá entre o conjunto dos poemas. Um deles traz o verso e todos os dias eu sonho com o mar que possui 26 letras como o nosso alfabeto. O mar para mim é mais do que uma imagem neste livro, ele é uma pergunta.
Fernando Andrade. Como a prosa trabalha no seu processo poético, há ecos da solidão, da incomunicabilidade de Beckett nestes textos em prosa. Comente.
Katia Maciel. No livro muitas vezes o poema beira a prosa e a prosa o poema, o que ocorre muito na poesia contemporânea. No meu caso, gosto de provocar a prosa em seu significado que vem de discurso, de linha reta, procuro inverter, cortar, parar. E sim, não é sobre comunicar, há uma nota impessoal de imobilidade em alguns diálogos como em Beckett. Mas há outras presenças narrativas e artísticas que movimentam a escrita de Praia a pino. Faço algumas dedicatórias que remetem a algumas destas referências. É um livro povoado como uma praia.
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