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Fernando Andrade. Fazendo uma analogia meio tosca, seu livro seria um belo painel de um telejornalismo em que temas contemporâneos são refletidos por você com uma minúcia impressionante. O tom cronista para mim aproxima e também puxa mais leitores para assuntos de fundamental importância midiática. Comente.
Matheus Arcaro. Creio que não existem fronteiras rígidas entre os gêneros literários, tampouco entre literatura e filosofia. Antonio Candido escreveu em seu “personagem da ficção” que um texto literário tem duas premissas: a ficcionalidade e o trabalho linguístico. E colocou, por exemplo, os pensamentos de Pascal, na prateleira da literatura. Se concordarmos com Candido, meu livro estaria no limite entre crônica e ensaio ou entre literatura e filosofia. Eu gosto disso. O umbigo de Adão borra as fronteiras, bagunça as cercas que separam os gêneros. Por meio deste livro, fica evidente que é possível refletir sobre temas delicados ou profundos de modo acessível, sem parecer ou ser pedante. A teoria abraçada à prática por um cronista filósofo. Ou filósofo cronista?
Fernando Andrade. Não exista, talvez, o cerne das coisas, o mundo já foi implodido e fragmentado por guerras, revoluções, você dialetizar a síntese e a antítese, para talvez não elaborar teses. Fale sobre isso.
Matheus Arcaro. No final do século XIX, vivia-se a Belle Époque, ou seja, a crença no avanço e no progresso da humanidade. Com todas as catástrofes do século XX, já em sua metade ninguém mais acreditava neste cenário. Mesmo os filósofos marxistas que defendiam o pensamento dialético, o faziam sem a possibilidade de síntese. Se a filosofia não dava mais respostas, abriam-se brechas para a literatura cumprir o papel de perscrutar as mazelas sociais e a própria condição humana. Não por acaso Camus escreveu: “Se quer ser filósofo, escreva romances”. Na apresentação do meu livro (que não é propriamente literatura no sentido estrito do termo) escrevo que esses meus aforismos e frases podem ser tudo, menos veículo da verdade. São reflexões despretensiosas, minha perspectiva sobre assuntos variados que podem penetrar nas frestas de quem lê e causar satisfação ou incômodo para tornarem-se, quem sabe, tônico vital.
Fernando Andrade. Você relativiza os dogmas católicos, mas recupera a figura de Cristo sem seu manto divino. Talvez sua figura seja mais revolucionária do que santificado pela igreja católica. Comente.
Matheus Arcaro. Cresci dentro da Igreja Católica, fui coroinha dos 8 aos 14 anos. Conheço bem a Bíblia e a doutrina. E minha visão de Jesus foi mudando ao longo da vida: daquela figura sacra (representado quase como um surfista australiano) para um homem revolucionário (palestino de pele escura e cabelos crespos).
Nenhum pensador sério duvida da existência histórica de Jesus de Nazaré, o que se coloca em xeque é a divindade deste personagem. De acordo com Nietzsche, Jesus nunca teria se declarado filho de Deus. O que chegou a nós foi a visão de Paulo de Tarso, que distorceu as palavras do nazareno. Eu concordo (mesmo que não de modo integral) com essa perspectiva nietzschiana de Jesus. Concordo também quando ele aproxima cristianismo e marxismo. Minha discordância com o filósofo alemão é em relação a enxergar Jesus como início da decadência, juntamente com Sócrates e Platão.
Fernando Andrade. O título do livro para mim revela um interessante paradoxo, entre biologia (pela imagem do umbigo), com um personagem bíblico, que funda “a fábula” da criação humana. Fale deste título.
Matheus Arcaro. Desde muito cedo me intriga a ideia de Adão e Eva possuírem umbigo, já que não foram gestados por uma mulher. Quando visitei a Capela Sistina, essa inquietação se acentuou, mas nada fiz com ela de princípio. Muitos anos depois, quando estou a escrever meus pensamentos, a imagem da Criação do Homem volta à minha mente: salta do inconsciente para a tela do computador.
E encontro uma explicação artística, estética, para este umbigo: assim como minhas palavras, o umbigo de Adão é criação de Michelangelo. Ali percebi que o cordão umbilical do artista italiano me nutriu por anos. E, com a água sagrada da arte, ele batizou meu oitavo livro.
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