![]()
Fernando Andrade – Seu livro de contos tem uma abertura incrível de temas e formas. Mas alguns contos sobre determinado tema fecham o livro com certa unidade. Explique suas motivações.
Zé McGill – Sempre gostei de ter um certo ecletismo entre os contos de um livro meu, e isso de variar temas e formas já acontecia também nos meus dois livros de contos anteriores.
Gosto de experimentar diferentes tipos de linguagem (no livro novo temos contos narrados por mulher, homem e até por uma camiseta!) e de brincar com a forma, como no conto “O manifesto”, em que sinais gráficos e de pontuação entram em greve para reivindicar o seu uso adequado na língua escrita. É o tipo do conto que causa um efeito visual interessante no texto impresso, mas não tem o mesmo efeito se for escutado num audiobook, por exemplo; ele precisa ser lido no papel. Nesse último livro, decidi alternar os contos sobre sonilóquios – que são as coisas que as pessoas falam enquanto dormem – com outros temas, mas no fim das contas, acho que quase todos os contos têm essa atmosfera do onírico, o que acaba dando uma certa unidade ao livro.
Fernando Andrade – O cotidiano não está fechado ao insólito ou fantástico. Suas histórias atravessaram sonhos, inverossímil, ou o fantástico. Comente estas histórias.
Zé McGill – Acho que o cotidiano, assim como a literatura, é alimentado pelas subjetividades, pela imaginação e pelo absurdo também. Ou pelo menos deveria ser. Acredito que a ficção e os sonhos moram num mesmo planeta. Todo conto tem um pouco de sonho. Mas no caso dos sonilóquios, o que me interessa como literatura não diz respeito exatamente ou somente aos sonhos, mas sim às reações, interpretações e julgamentos dos “interlocutores” sobre o que foi dito pelo personagem que está dormindo. No conto que abre o livro, por exemplo, “Sonilóquio I – As Paredes do Hotel Sonho Lindo”, uma camareira escuta um hóspede dizer, enquanto dorme, que vai matar alguém. Ela surta e entra numa paranoia total, acaba chamando a polícia, mas o desfecho da história mostra que o julgamento que ela fez daquela fala, daquele sonilóquio, foi um julgamento equivocado. É justo julgar uma pessoa pelo que ela fala enquanto dorme?
Fernando Andrade – Você parte de um discurso neste contos temáticos em série, com alguma abordagem do inconsciente, daquilo que foge à razão. E isto acaba tendo algum efeito cômico. Por quê?
Zé McGill – Alguns contos do livro, mas nem todos, realmente acabam tendo um efeito cômico.
Outros são mais, digamos, inquietantes ou assustadores. E alguns deles carregam os dois ingredientes. Acho que isso acontece porque os sonhos, a ficção, a vida, são feitos dessa variação de humor, da mistura de sensações, percepções e estados de espírito. E acho que um livro é mais rico quando ele consegue fazer o leitor rir, chorar, pensar, sentir medo, nojo, raiva, enfim, quando ele consegue despertar essa variedade de sensações. Mas o fato de alguns dos contos terem momentos engraçados nem sempre é uma coisa planejada. Muitas vezes os próprios personagens nos levam por esse caminho. Eu mesmo dei algumas gargalhadas enquanto escrevia. Ainda bem!
Fernando Andrade – Podemos responsabilizar o frei que falava em Diabos, dormindo. A religião não é domínio da razão. O místico assombra também. Comente este conto.
Zé McGill – Esse conto se chama “O sonilóquio suicida”, e trata de um frei que fala coisas sinistras, diabólicas, durante o sono. Os outros freis do mosteiro ficam aterrorizados e decidem puni-lo. Talvez seja o conto do livro que faça o melhor retrato sobre a injustiça que é responsabilizar ou julgar alguém pelo que fala enquanto dorme. Aliás, foi bom você me perguntar sobre esse conto porque quando fui ler a versão física do livro pela primeira vez, aconteceu aquilo que é temido por muitos autores: tive vontade de acrescentar uma frase ao conto, quando já era tarde demais. A frase seria mais ou menos esta: quem garante que o frei Klaus estava mesmo dormindo quando passou a receita do pão? Essa ideia tem me perseguido e talvez eu inclua isso numa próxima edição do livro. Ou talvez não…
Be the first to comment