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Fernando Andrade – O universo em belas canções. Falamos de nós dentro de um complexo mecanismo de vida. Melhor seria sobre seu livro falar de pluriverso. Me fala sobre tantos objetos, pulsões, e desejos que perfazem sua poética.
Andressa Nunes – É que a escrita é parte essencial de meu modo de estar no mundo; através dela eu leio, esboço e bagunço a vida. É natural, portanto, que ela seja atravessada pelas minhas diversas experiências. Busco tratar temas distintos como religiosidade e redes sociais com o mesmo olhar, sem hierarquias: todos cabem no poema.
Fernando Andrade – Você como ninguém sabe manejar a teoria a práxis psicanalítica dentro da poética, ainda dosa com extremo bom humor um universo de referências da arte. Comente.
Andressa Nunes – Me sirvo da voz da Mulher Apocalíptica para tecer alguns comentários sobre a psicanálise de forma quase direta em alguns poemas, inclusive ironizando e trazendo um olhar mais debochado e menos solene à teoria psicanalítica, tirando um pouco esse escabelo dos mestres que leio, releio e reinvento na minha prática. Por outro lado, a psicanálise parece pulsar de todo modo no decorrer do livro justamente pela minha implicação com essa prática, de modo que mesmo o que parece distante dela, se aproxima. A psicanálise tem algo de literário, desde as formações do inconsciente como o chiste e os atos falhos, até a leitura de um inconsciente joyciano, paisagístico, que ultrapassa as línguas e borra as lituraterras.
Fernando Andrade – A ironia adotada no seu livro funciona com um competente libelo a favor da liberdade, de uma arte de escrita política e ética. Comente
Andressa Nunes – Tenho a ambição de ressaltar na poesia o seu lugar de rebeldia, juventude, contracultura. Não me interessa uma poesia asséptica, digerível, sem veneno. Me interessam o encanto e o espanto, mas eles podem vir das mais diversas maneiras, com ironia ou não. No meu caso, a ironia serve como uma forma de veicular algumas pequenas violências vestindo-as no papel celofane do humor.
Fernando Andrade – o particular é sempre engolido pelo universo ao redor. Ou Não, fale do seu título.
Andressa Nunes – A hipótese mais interessante, indicada pelo meu irmão, é a de que o título desse livro se refere ao aquecimento global, afinal, é inegável que os oceanos estão cada vez mais perto de devorar não só nossos esconderijos como também nossas vitrines. Ora, acho coerente, afinal, é a Mulher Apocalíptica que está falando e ela vem anunciar não um fim, mas um recomeço (a palavra “apocalipse” vem de um após as ilhas de Calipso, numa referência à Odisseia — uma revelação!). Esse título foi retirado do poema que apresenta o livro “a cabeça da medusa conservada num litro de pitú”, e no contexto do poema ele aponta para o fazer da poesia finalmente transbordando do corpo da autora para a página. Ou não. Mas sinto que o oceano tem suas fomes e o esconderijo tem suas iscas, portanto me disponho.
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