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Fernando Andrade – O Ato da fé é um movimento íntimo. Uma conversa mineira. E sua crônica tem este sabor de beira de fogão à lenha. Das cantigas, da oralidade. Fale-me deste pertencimento.
Evaldo Balbino – Nasci e fui criado no interior mineiro, mais especificamente na zona rural do município de Resende Costa/MG. Fui criado à luz de lamparina, sem eletricidade, à beira de cachoeiras e entre grotas. Não acredito que um sujeito seja fruto do meio – esse pensamento não é científico e é ultrapassado. Mas acredito piamente que um indivíduo pode fazer escolhas. E escolhi me apropriar do que, na minha formação, me é caro. Assim minha escrita se perfaz: escrevo no permeio de cantigas, atravessado pela oralidade, pelo contar de casos e de causos à beira do fogão ou tomando a fresca no fim de tarde. Daí o caráter narrativo de muitas das minhas crônicas: um contar, um enredar de tradição dum narrador que vive, que experiência e que conta.
Fernando Andrade – O mineiro é muito apegado às tradições; à família. Nesta sua roda, cabem tios, avós, pai e mãe. Me conte como foi escrever junto deste clã todo. Comente.
Evaldo Balbino – Escrever sobre os meus, e entre eles, me é uma dádiva. Viver o dia a dia é o que temos para fazer. Escrevo sobre os meus sim, e até mesmo sobre alguns que não conheci pessoalmente, mas a partir do ouvir falar, do que me contaram. Ninguém na existência foge disso. Até mesmo o maior lunático não foge disso. Quando pensamos que nossos pés tocam a Lua, na verdade eles estão arraigados na Terra, introjetados nela. Nossos sonhos brotam de nossas vivências. Esclareço que a escrita é representação – tudo é recorte do meu olhar, discurso que se erige sobre algo, pois o outro e a coisa em si são inalcançáveis ao nosso entendimento. Desse modo, recriamos o já criado, discursamos sobre o mundo ao nosso redor e, mais do que tudo, sobre o mundo em constante construção dentro de nós.
Fernando Andrade – O poético aparece muito como linguagem apegada às ritualizações do credo, no seu livro. Você acha que o poético tem algo de religioso. Comente.
Evaldo Balbino – O poético é indubitavelmente religioso. Porque o nível de experiência é sempre o mesmo, odo religare. Do mesmo modo que me religo ao sagrado pelos rituais instituídos nas religiões, assim também a poesia me faz retomar o acesso a Deus. Ler um poema é orar, mesmo que seja um poema subversivo e até mesmo questionador das instituições religiosas. A palavras em estado poético nos colocam em transe, louvam a Deus pelo viés da beleza. Falo aqui da beleza estética.
Fernando Andrade – O ato de declamar é uma performance parecida com a oração. Elevar a voz acima do comum, do banal. Fale sobre isso.
Evaldo Balbino – Retomo o que eu disse na resposta anterior. A performance da declamação é similar à da oração.
Orações são verdadeiros poemas, trabalhados ou improvisados, não importa. Na tradição judaico-cristã, por exemplo, sabemos que os salmos são verdadeiras orações e verdadeiros poemas. A leitura do poema e a sua declamação sempre nos levam ao fora do comum, porque nesse momento não estamos usando a linguagem com puro objetivo comunicacional; buscamos aí algo a mais, o agrupamento das palavras, o casamento ou a dissonância dos fonemas, a atração e a repulsão das letras entre si; enfim, um ritmo outro, outra respiração, a que nos pega dos pés à cabeça e nos revela o mundo de modo mais intenso.
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