Fernando Andrade entrevista o poeta Afonso Henriques Neto

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Fernando Andrade. A companhia é um hábito social, não se faz poema com um pouco de solidão. A escrita é um voltar-se para dentro. Pensando nisso, seus poemas parecem estar concentrados no hábito de pensar não só no ato criativo, mas de revolver a personalidade humana. Comente.

Afonso Henriques Neto. Creio que a criação poética (igual a qualquer criação artística) é ato de imensa solidão. O criador frente a frente com o mito de se criar do nada algo potente. De frente para uma espécie de esperança de que o impulso criativo venha se transformar em um bom artefato poético. Um bom poema irá emitir energia tempo afora, tal qual uma estrela.

Fernando Andrade. Se formos pensar numa escala musical, as palavras parecem ser notas, cifras, sons, ritmos. Como substituir tão bem a linguagem, o brincar com as palavras, em musicalidade, em prosódia de canção. Fale disso.

Afonso Henriques Neto. O poeta Ezra Pound dizia que para se fazer poesia é preciso estar atento a três coisas que, em última análise, compõem o poema: melopeia, fanopeia e logopeia. A logopeia é o trabalho racional/intelectual do poeta, quando inclusive há a consciência do uso de vocábulos fora de seus sentidos habituais (aqui é importante perceber que a consciência sobre a “forma/estrutura” do poema é algo absolutamente fundamental). A fonopeia é o cuidado com as imagens (pura visualidade), enquanto que a melopeia tem que ver com a “melodia” dos versos, ou seja, o ritmo e as sonoridades de toda ordem. De minha parte, estou sempre atento a tudo isso, e a “música” dos versos sempre foi para mim essencial.

Fernando Andrade.  Pensando no ato de brincar e esconder; a sugestão é uma forma de aproximação onde o silêncio se faz verbo, onde o nada inicia a criação.  Onde o pensamento dá na pulsão corpo. Entre o vazio e o cheio como é seu ato de escrever. 

Afonso Henriques Neto. Sempre parto do vazio no ato de escrever. Afinal, o papel estará sempre em branco e é preciso preenchê-lo. Geralmente surge do nada uma frase, algumas palavras que buscam dar conta do que estou sentindo, de algo que deseja se manifestar e não sabe ainda como. Às vezes a coisa se interrompe neste ponto e você não consegue dar sequência ao poema. Mas tem outras vezes em que desse movimento no vazio se precipitam palavras sobre palavras e algo então surge com seus brilhos ou sombras particulares.

Fernando Andrade. Este título parece um paradoxo em termos. O mar é tão infinito (quanto) ou ao contrário, a textura ou os conectivos –  nervos. Comente

Afonso Henriques Neto. A prosopopeia significa emprestar características humanas aos objetos naturais de um modo geral. Dizem que a poesia nasceu quando alguém quis dar voz a uma montanha, às nuvens ou ao mar. Meu livro Nervos de mar talvez tenha que ver um pouco com isso. Procurei não só dar “voz” às águas, mas ao vento, ao fogo, ao encantamento e, também, ao vazio. Poesia é, entre tantas coisas, maneira muito especial de se colocar a sensibilidade humana em contato profundo com o mundo natural.

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