Entrevista com Adilson Zambaldi

Adilson Zambaldi - Entrevista com Adilson Zambaldi

 

 

 

FERNANDO ANDRADE:  Seus contos possuem narrativas abertas para um sentido plural, onde a linguagem depurada facilita os acessos da forma que dá margem aos conteúdos. Como foi esta criação nas entrelinhas?

ADILSON ZAMBALDI:  Muito interessante esta pergunta. Na verdade, eu enquanto escritor, gosto da ideia do leitor ativo, interagindo com as suas próprias fabulações enquanto lê. Penso que a escrita elíptica aplicada as formas breves do livro Fidelidade das Araras contribui para a imersão do leitor neste jogo narrativo, ao qual o crítico literário Sérgio Tavares definiu na apresentação da obra como uma espécie de puzzle. Frases que se encaixam dando novo sentido ao que foi lido, revelando uma história fascinante. Compartilho também do enunciado pelo escritor argentino Ricardo Piglia, em “Sua Tese Sobre o Conto”: “O conto é construído para revelar artificialmente algo que estava oculto. Reproduz a busca sempre renovada de uma experiência única que nos permite ver, sob a superfície opaca da vida, uma verdade secreta. A visão instantânea que nos faz descobrir o desconhecido”. Acho interessante pensar a leitura da narrativa breve como uma revelação pessoal, embora o sentido aberto da escrita do Fidelidade das Araras pareça plural, imagino que a interpretação é um tanto particular.

FERNANDO ANDRADE: A linguagem nas narrativas não funciona como uma paródia do já escrito, do já encontrado. Você atualiza de certa forma enredos, regionais, interioranos, mas sem qualquer ranço de imitação. São narrativas ousadas com primor de novidades. Fale disso.

ADILSON ZAMBALDI:  “Meu quintal é maior do que o mundo”, versa Manoel de Barros em suas “Memórias Inventadas”. Cada escritor acaba por ampliar seu universo narrativo a partir da fabulação de seus territórios. O sentido de pertencimento é alargado pela ficção. Um olhar inédito sobre o cotidiano, característica dos poetas como Manuel Bandeira e cronistas como Rubem Braga também me atravessam. Sou inspirado e sugestionado a escrever sobre meu quintal com a mesma iluminação de quem encontra poesia numa manchete de jornal. No livro Fidelidade das Araras você encontra narrativas que se passam no litoral, no interior do Brasil, numa montanha durante uma forte nevasca, num pequeno cômodo ou nos grandes centros urbanos. Diferentes geografias para o habitat humano. Hoje, mais que nunca, o mundo é o nosso quintal. Desassociar a experiência humana da geográfica não me parecia uma boa ideia. Por isso, a linguagem e enredo estão diretamente conectados, isso vale também para os cenários e personagens que são retratados em cada narrativa, ainda que breves, elas se valem do hibridismo e da imagética para proporcionar uma nova experiência literária.

 

FERNANDO ANDRADE: Há uma infinidade de aglutinações de ações-referenciais que você encontra num meta universo literário de suas leituras. A do Van Gogh é uma. Como trabalha, citações e referências nos seus textos?

ADILSON ZAMBALDI: Easter egg literário ;
Pego emprestado do Villa-Forte um trecho da página 96 do seu interessante livro Escrever sem escrever – Literatura e apropriação no século XXI: “O autor não se constitui somente pelo que escreve, mas também pelo que lê”. Dentro do jogo narrativo, vejo espaço para ofertar algumas experiências meta referenciais que adicionam novas interações à leitura. Ora enigmáticas, ora expostas de maneira objetiva, as referências são pequenas homenagens, contribuem para a ambientação do enredo e renovam os recursos de linguagem. Um leitor mais atento pode identificar, além da menção ao já citado Van Gogh numa referência as artes visuais, também a influência do Hemingway, por exemplo, durante uma conversa no balcão de um bar no centro de São Paulo ou ainda o final-homenagem do conto “Paribar”. Outro exemplo que abre o livro é a citação da música Afogamento (Gilberto Gil/Roberta Sá) no conto “Menina do Mar”. Aqui abro parêntese para uma história dentro da história. Quando comecei a escrever este conto, fui arrebatado por esta canção, muito bela por sinal. Toda vez que sentava para escrever este conto, colocava a música para tocar e então abandonava a escrita e passava o restante do tempo apenas apreciando a música em looping. A solução que encontrei para avançar foi começar a história pelos versos da canção. Somente depois disso consegui dar conta de escrever essa narrativa que tem como cenário uma praia, e conta a história de um pai que se perde da filha num momento de distração. Fecha parêntese. Acredito que estes recursos são uma tentativa de me manter produtivo durante o processo de escrita. Ao leitor, o embate se converte em novas formas de ampliar a leitura. O jogo narrativo prossegue. Todo mundo ganha.

FERNANDO ANDRADE:  Há todo um universo masculino em formação, nas suas narrativas. São contos onde a natureza do feito e da gesta masculina parece ser poetizada pela linguagem  (des)normatizadora? Fale disso. 

ADILSON ZAMBALDI: O jogo narrativo do livro Fidelidade das Araras também é articulado no campo social e emocional. De certa maneira, os enredos investigam o masculino e suas relações, assim como nos leva a refletir sobre a “lealdade” socioemocional destas relações. É impossível pensar a sociedade sem pensar a formação desta masculinidade, ora tóxica e probatória, pautadas por pequenos feitos. No livro, essas provações são colocadas em xeque. Uma vez em xeque, o jogo narrativo torna-se arisco. Daí o retorno a primeira pergunta: a opção pela narrativa aberta. A literatura estabelecida no livro Fidelidade das Araras não é o fim do diálogo, mas um recorte singular de uma história dentro da própria história, o desfecho não se encerra em si. A masculinidade também é uma chave de leitura que está em jogo e a linguagem (elíptica) funciona como um artifício para a imersão.

Adilson Zambaldi
Comunicador Social (UMC 2001), pós-graduando em Formação de Escritores, Núcleo Ficção, pelo Instituto Vera Cruz (2021); autor de Corra Zamba – Contos rápidos para ler sem pressa (Ed. Patuá 2017) e Fidelidade das Araras (Ed. Reformatório 2021).

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