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Acabo de ler a peça de dramaturgia Evoé, 22! (editora Patuá, 2021), de Luiz Eduardo de Carvalho, e escrevo a seu respeito ainda no calor da impressão primeira: o texto tem a substância de um diálogo socrático na discussão acerca da perspectiva da modernidade e, particularmente, do nosso Modernismo de 22.
É impressionante o volume de temas que se vão sucedendo nos diálogos entre Sucupira e Mercúrio, a partir do claustro (que já é por si, uma alegoria da periferia enclausurada e alheia aos eventos da vanguarda artística). Quando digo que o drama de Luiz Eduardo de Carvalho tem fumos de diálogo socrático, refiro-me especificamente às cenas em que Faustino explicita suas ideias a respeito do supermodernismo, aliás, ideias absolutamente visionárias de uma realidade que habitamos.
A fineza da ironia nisso tudo é marcar o suposto fracasso do Modernismo dos Andrades no surgimento daquilo que Calabrese chamará de Neo-barroco e grande parte da inteligência catalogará como Pós-moderno (onde tudo cabe).
As críticas ao projeto Modernista paulista (digo paulista por que, sim, o modernismo de 22, apesar da presença de cariocas e um pernambucano, Manoel Bandeira, foi um projeto paulistano) que, pela boca de Faustino, ganha força e substância, muito embora fique evidente o paradoxo de sua união com o arquétipo gabinetista na figura do famigerado Otto.
As diversas citações que, pelas falas dos personagens, surgem, também demonstram a que veio “Evoé, 22”: resgatar aquela literatura “rifada” injustamente pelos integrantes da famosa Semana. Não por outro motivo, Lima Barreto e Augusto dos Anjos, duas notórias “vítimas” daquele evento de fevereiro de 1922 no Theatro Municipal, surgem no texto: aquele, pela atmosfera de revolta ao cenário “meritocrático” representado pelo Otto e seus planos de poder, este, textualmente na citação de seus versos “escarra na boca que te beija”.
Apesar da seriedade do texto, da profundidade dos temas que discute, a presença de Conceição alivia e, ao mesmo tempo, insere o contraste entre aqueles que se pretendem gênios e norteadores dos destinos do povo, e do próprio povo, em seu trabalho, que assiste a tudo e é levado a reboque. Aliás, é justamente essa pretensão terrível de intelectuais que se veem como os super-homens, donos do bem e do mal, uma grande sacada do texto, ao revelar um problema complexo que é justamente a presença e participação de intelectuais no desenrolar dos fatos históricos.
Creio que Evoé, 22! é um texto para ser lido e discutido em cadeiras de estudos modernistas, exatamente como Em Liberdade, do Silviano Santiago, é matéria fixa nas cátedras gracilianas. Essa minha leitura do texto traz-me a clareza que aquela semana de 22 ainda não acabou. Luiz Eduardo de Carvalho, obrigado por tê-la escrito para reavivarmos esse debate.
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Leonardo Almeida Filho (Campina Grande, 1960), professor universitário, escritor, ensaísta, reside em Brasília desde 1962. Mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (2002), publicou, em 2008, o seu livro Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito (EdUnB). Alguns trabalhos publicados: O livro de Loraine (romance, 1998), logomaquia: um manefasto (híbrido, 2008); contos em Antologia do Conto Brasiliense (2004) e Todas as gerações (2007) e pelo Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); poesias em Poemas para Brasília (2004) e pelo Prêmio SESC de poesias Carlos Drummond de Andrade (2011). Publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem (Hinterlândia, 2010), que aborda o cinquentenário do escritor Graciliano Ramos.
Publicou, pela Editora e-galaxia, Nebulosa fauna & outras histórias perversas (contos), pela Editora Patuá, os títulos Babelical e Tutano (poemas) e Nessa boca que te beijo (romance) e Grande Mar Oceano (romance, Editora Gato Bravo/Portugal, 2019 – Editora Jaguatirica, Rio de Janeiro, 2019).
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