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FERNANDO – Você começa seu livro de ensaio\ crônica de forma muito pessoal e afetuosa falando da Amendoeira, no quintal de uma casa. Quais imagens a árvore carrega para o livro em si com um todo?
ALEXANDRE – A amendoeira é uma metáfora no livro, embora ela tenha existido de fato. É uma árvore muito comum na cidade e principalmente no subúrbio rural dos anos 80 e 90 da cidade do Rio de Janeiro. Algumas poucas partes de Campo Grande ainda conservam esse ambiente no qual eu cresci. A amendoeira costuma gerar amor e ódio entre moradores porque ao mesmo tempo que ela oferece uma sombra muito gostosa e acolhedora, ela acaba levantando o solo, o calçamento, afetando muros e casas ao redor. No fundo ela é uma árvore incompreendida e até menosprezada de tão comum. Algo como e Democracia hoje, em especial nesse país que sempre viveu entre golpes de estado e copas do mundo. A amendoeira apresenta como minha visão sobre a “civilização” brasileira, entre aspas mesmo, foi construída desde a infância. Acho que no fundo a minha história com uma amendoeira de bairro acaba sendo uma referência também a outras infâncias, por outras pessoas, muitas vezes com até outras árvores ou personagens. Comunga-se ao sentarmos sob sua sombra de um sentimento de coletividade, pertencimento e empatia que anda raro hoje em dia. A minha expectativa é que isso una as pessoas durante a leitura de um ensaio apenas. Alguns poucos minutos para apresentarmos questões tão duras e brutais como as que são apresentadas durante o livro pela própria realidade brasileira. Não é à toa que há um fechamento no último texto de toda a perspectiva aberta pelo primeiro texto no qual é apresentado a amendoeira. Não como ler o primeiro e não ler o último.
FERNANDO – Como foi o trabalho da fonte no livro? Houve alguma pesquisa para decupar as informações que estão no livro? Como foi alinhavar os temas através desta decupagem?
ALEXANDRE – Todo o livro foi feito no decorrer dos anos de 2016, 2017 e 2018. Tudo que há no livro foi publicado em jornais, revistas e periódicos da imprensa. São hoje fatos históricos. Talvez o mérito do livro, modestamente falando, se o há nesse sentido, seja captar o espírito das coisas. Toda uma onda de transformação política, econômica e social que varreu o país não deixando muita coisa para depois, e ao juntar os cacos hoje em 2020 talvez possamos olhar para esses anos e entender como muitos foram manipulados através de seus sentimentos mais inconfessáveis e anticivilizatórios. Daí concatenar os temas é algo que é feito pelo leitor hoje. Acaba sendo mais fácil, mas à época era apenas um grito desesperado. O feedback de quem já leu tem sido maravilhoso. Sentimento de alívio, epifania ou inconformismo. O Guia de Sobrevivência do Exilado no Próprio País não é indiferente a ninguém. Parece que ninguém sai igual ao final. Isso porque poucas pessoas têm percebido como a política nacional afetou nossas vidas em seus menores espectros. O livro contribui para enxergarmos isso de maneira mais viva.
Sobre a decupagem cabe dizer que o livro teria o dobro do tamanho. Dos dez textos foram selecionados cinco. Acho que foi a melhor escolha para passarmos o que gostaríamos de passar. Tanto a editora Penalux, a quem eu agradeço muito, como eu.
FERNANDO – Você cita muito o Nelson Rodrigues em alguns textos, principalmente quando se fala de uma certa antropologia cultural da formação do perfil brasileiro em seus percursos sobre a política e até sexualidade. Como o dramaturgo se entranhou nas suas crônicas?
ALEXANDRE – Atravessar Nelson Rodrigues em um de meus textos foi para mim uma maravilhosa provocação. Acredito que ninguém conhece melhor a essência do que convencionamos a chamar de Classe Média no Brasil, em nossa Literatura e Dramaturgia, melhor do que Nelson. Mas isso se deu também porque eu precisava unir dois pontos que achava por demasiado interessantes na construção, ou reconstrução, do nosso complexo de viralata 2.0 em pleno século XXI. O episódio do 7×1 para Alemanha na Copa do Mundo do Brasil em 2014 teve como anfitriões primeiros, e vítima diretas, a classe média de iphone que lotou as arenas multiuso padrão FIFA. Não foram os arquibaldos e geraldinos de outrora que apareceram chorando humilhados na TV. Isso foi uma tragédia rodrigueana de mão cheia. E só ele, na minha humilde opinião, poderia dar conta de toda erupção de sentimentos subterrâneos que aquela decepção representou pra quem nessa nova geração enxerga futebol como um videogame, onde você pode recomeçar um jogo a qualquer momento, até finalmente “zerá-lo”. De forma que precisava do Nelson Rodrigues. Simples assim. Era necessário. Nos estamos ainda vivendo essa tragédia rodrigueana. Os dias de hoje são uma consequência de tudo que ocorreu lá. Eu apenas construí uma mitologia à lá Nelson Rodrigues sobre a origem de tudo isso. A origem da Era do ódio, talvez.
FERNANDO – O governo do PT, principalmente, no impedimento da presidente Dilma tem um espaço grande no seu livro. Como foi este trabalho de pesquisa e investigação de alinhar uma grande camada de informações para estudar quase sociologicamente todo o processo pelo qual Dilma passou?
ALEXANDRE – Em termos de informações não houve muita dificuldade. Como disse antes, tudo foi amplamente colocado nas redes e em jornais independentes, corporativos e dos mais variados matizes partidários. Salvando-se do que é desinformação, o que sobra são provas do episódio mais grotesco da história recente da nossa Democracia. No livro eu explico o porquê. Confesso que não foi muito difícil a costura dos temas. Mais difícil para mim foi entender que os três anos de textos representaram uma mudança, uma pequena inflexão, na minha perspectiva dos fatos. Isso foi novo. O leitor mais atento consegue pegar isso. Tanto o PT quanto a Dilma e outros personagens tem seu espaço de críticas, porém dentro de um patamar civilizatório, não dentro do miasma antiminorias que permeia a visão do brasileiro médio nesse período. E ainda permeia. Mas o Alexandre que escreveu o Golpe na Amendoeira não é o mesmo que escreveu Chão de Amêndoas. Hoje, principalmente quem pertence ao espectro democrata e das esquerdas consegue ver com clareza que todos tiveram essa mudança de perspectiva, mesmo que tardiamente. Essa é uma contribuição do livro.
FERNANDO – Você lida como um sentimento de despertencimento do brasileiro com relação ao seu lugar. O que você acha que causa esta sensação de não pertencimento?
ALEXANDRE – Posso falar talvez da minha geração, e nem sobre ela toda. Posso falar sobre aquelas pessoas que cresceram acostumadas com um jogo bem jogado da Democracia brasileira. Foram aproximadamente 30 anos de mar calmo. Cresci nesse interregno. Mas a regra geral da política brasileira não é, nem nunca foi essa. Por isso o estranhamento. Ninguém da minha geração nasceu achando que poderia perder a Democracia. Para nós é algo como favas contadas. Algo quase imutável, e assim “deveria” ser. E quando isso é abalado estupidamente e impulsionado junto com sentimentos antirepublicanos e até grotescos das ruas o anoitecer da alma é quase inevitável. Lembro quando ainda na faculdade não entendia porque dois professores do mesmo departamento não se falavam, mal podiam dividir o mesmo ambiente. Soube mais tarde que havia ali uma divisão política tão grave que fez com que um tivesse dedurado o outro para a Ditadura. Sempre achei aquilo grave, mas sempre vi à distância. Hoje consigo mensurar o que isso pode representar na visão de mundo de outra pessoa. Para mim valores como Direitos Humanos, Democracia, Representatividade são simplesmente inegociáveis. Não há como discutir política e economia sem que a pessoa do outro lado divida essa refeição conosco. Não há. Não é um requisito político, mas civilizatório. Daí o sentimento de despertencimento vem quando se há a percepção de que uma quantidade relevante de pessoas no país parece ter simplesmente desistido da civilização. Acho que quem procura o Guia de certa forma tem esse sentimento ainda incandescendo dentro do peito.
Espero apenas que com o tempo o contato presencial retorne, mesmo que com os devidos cuidados. Sinto falta dele. Acho que todos nós.
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