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Adriano B. Espíndola Santos. Natural de Fortaleza, Ceará. Autor dos livros Flor no caos, 2018 (Desconcertos Editora), e Contículos de dores refratárias, 2020 (Editora Penalux).
Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados nas Revistas Acrobata, Berro, Brasil Drummond, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura & Fechadura, Mallarmargens, Mbenga, Mirada, Pixé, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho.
Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.
Paradeiro
Marina rejeitara o meu torpor. Não posso me enganar; não desta vez. Achar que ela simplesmente saiu para um incipiente passeio pelas ruas de Paris, para flanar e beber, é enganar o espírito. Sim, ela se foi, tenho de me acostumar; decerto, para nunca mais.
Veja, veja como tento amainar a questão: “decerto”. É isso, fico feito tonto, bolando, em minha mente, regressos imaginários, apoteóticos, de uma donzela arrependida, que se enjoou dos prazeres mundanos, para se declarar pródiga e ser, enfim, envolvida pelo calor dos meus braços – sim, com essas palavras malditas e clichês, me revelava, indelével, frio, gosmento, segundo contava Marina, assaz impaciente: “Assim, ilustríssimo Augusto, você parece uma víbora percorrendo os azulejos do banheiro, que, por descuido, roça minha pele e me faz temer a morte, por me imaginar me jogando do terceiro andar, de tanta aflição. Se bem que a queda pode ser um motivo para embaraçar os meus planos… Em suma, você; assim, olha: [raspar as unhas na parede]. Você entende isso? Acho pouco provável… Por que não reage, toma atitude de homem? Vai fazer alguma coisa que preste, de vergonha, e para de ser ordinário!”.
Marina não era comum. Eu, sim, sempre fui um sujeito mediano, razoável; “morno”, que até os porcos vomitam, porque lhes causa embrulho no estômago. Tentei aventuras para despistar, mas, logo, era engolido ou solapado pela premente apatia que tomava conta do meu ser. Por exemplo, a empolgação de um fim de semana na praia se convertia em maquinação de projetos; abria o computador ou os livros que levava e quedava horas tentando acomodar números e letras, para, alçando o vislumbrado sucesso, esfriar os ímpetos de Marina.
Nunca entendi a expressão “pomba sem fel”; um insulto ou uma faísca. Após vomitar impropérios contra a minha pessoa, e literalmente sair, vinha a tarefa de decifrar os enigmas de uma mulher que bufava a cada pisada, como exprimindo desgosto por topar comigo nalgum compartimento desse mísero apartamento, quarto e sala.
…
Transito muitas vezes do quarto à cozinha, e vice-versa, para beliscar os farelos. Lavo, freneticamente, os pratos e os talheres. No caminho, quando posso, expurgo as passagens possíveis, ainda penetráveis, de restos de plásticos e de caixas abandonadas pelo apartamento, derivadas das entregas recentes, e me percebo com o olhar fixo para a porta da sala.
Ouço vozes e tilintar de chaves, deitado na rede petrificada na sala; mesmo no quarto, com a televisão ligada para o nada, percorre em mim o fragor de uma explosão interior, que aponta para extinguir as artérias, as vísceras, se não souber do paradeiro dela.
Já me convenço de estar acometido por alguma doença obsessiva ou possessiva; não demoníaca, jamais, mas de adágios recorrentes, que me levam à imagem concreta da mulher que queria ditar o meu destino.
…
Era terça, quando acordei afobado pelo sonho da inundação, em que nossas coisas boiavam pelo apartamento, com a água no peito, e procurava, desesperado, por ela.
Estava sendo levado pela corrente fria, vigorosa e constante, que me arremessava contra as paredes; descia, me afogava e, depressa, acendia-me uma energia desconhecida para resistir, ir à tona, e respirar.
Desde o fatídico dia, por mais que me arrastem ao raso do chão as memórias dela, refreia-me essa energia vital, para saber primeiro, definitivamente, aproveitando o lapso de consciência e o abandono, em que ponto me perdi.
…
Hoje, Marina abriu delicadamente a porta e entrou com um olhar baixo e soturno, carregando a sua maleta de guerra; colocou-a ao lado da mesa de cabeceira, tirou as sandálias, e deitou-se em nossa cama macia, sem dizer uma palavra.
Adriano B. Espíndola sempre nos faz ficar curiosos pelo desfecho do que está narrando.
Não foi diferente neste conto de hoje. Apreciei.