Resenha | O “Livro do Preenchimento” tece a afetividade de uma mãe pelo exercício da alteridade | por Fernando Andrade

PATUA LIVRO PREENCHIMENTO PATUÁ - Resenha | O "Livro do Preenchimento" tece a afetividade de uma mãe pelo exercício da alteridade | por Fernando Andrade

 

 

por Fernando Andrade | jornalista e crítico de literatura

A terceira pessoa é uma voz que alude.  Ela fala de terceiros. Como uma orelha que escuta e fala sobre um determinado livro. Ela pode sugestionar leituras, direcionar olhares, mas nunca será a dona da voz sobre o livro que conta-narra.  Antigamente a orelha era a fábula da avó, mistura de contos e causos que fazia ninar os netos. Neste mundo machista, os homens não escutam mais, nem as avós.

São deterministas de uma noção  de quem ouve não é macho suficiente. São calculadores e narcisistas de seu próprio meio. Mas como uma pessoa baseado na  força do ego pode ser pai e dividir uma vida com sua esposa? Não ser o núcleo da coisa, e sim, parte de um processo que compartilha demandas, afetos, e mais importante compaixões.

Talvez o gênero seja pesquisar, o outro, naquilo que tem de único e  gestar o espaço que pertença a demanda do desejo. Como uma co-responsabilidade pelo outro. E aqui entra o afeto do corpo que preenche um ser que é devir. Que será futuro. Uma gestação de um outro que será corpo ao mesmo tempo dependente e singular na sua formação de eu psíquico.

Nesta espécie de estrada que toda mãe se vê, entre o desejo de uma continuação que não é apenas sua, mas também de uma dupla compartilhada. Ana Amália Alves então, em sua coletânea O livro do Preenchimento, editora Patuá, com muita ternura e delicadeza e com um exímio poder de síntese sobre toda matiz poética do sentir-dizer; tece esta relação dialógica no gestar; aqui em seus muitos níveis de significados.

A vida nos enrijece pela batalha do dia a dia. Nossas expectativas como filhos muitas vezes se distanciam das dos país.  E nesta posição de eu no que se tem de combate. Ou identificação de experiências que Ana reveste ou veste toda uma rica sabedoria de intimidade na parceria com o afeto compartilhado.

 

IMAGEM: https://www.facebook.com/editorapatua/photos/

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