Três poemas de Edimilson de Almeida Pereira

FOTO EDIMILSON DE ALMEIDA 300x214 - Três poemas de Edimilson de Almeida Pereira

Congado, Nova Era (MG). Autoria: Jacqueline Machado, 1986.

 

 

ORELHA FURADA

Dançar o nome com o braço na palavra: como
em sua casa um maconde.

Dançar o nome pai dos deuses que pode tudo
neste mundo e suportar o lagarto querendo ser
bispo na sombra.

Dançar o nome miséria, estrepe e tripa que a
folha do livro é. E se entender dono das letras
em sua cozinha.

Dançar o nome em sete sapatos limpos para
domingo.

Dançar o nome com a mulher nhora dele: a
mulher no seu coração tempestade e ciranda.

Dançar o nome com o braço na palavra berço.

 

 

O NO JARDIM DE SEO BIANO

O árvore glabro monta lição de ossos: quando
o negra pássaro pousa é varanda.

Na presença deles o menino sabe o pião mas-
nunca o sapato que o faz parar. Árvore verbi
nigra pássaro sobre o pião e o menino rodador.

Se o pássara nigro bandeia o árvore varanda
com vento só. O menino-pião descobre o ter-
reiro vazio a morte nele: e o carro medonho
a caiar de fogo.

E a morte em guarda escatungandém escatun-
gandém. A redonda voz da morte-mor.

E o menino infirmo na vó lembrança do pássa-
ro glabro em árvore negra escapole à carniça
da morte mó. E sabendo sua graça continua
menino. O que vai à festa maior.

 

 

NA CASA DA PALAVRA

os homens que falam poeira cadê sua miséria
comentam o motivo de falarem poeira cadê
sua miséria.

Poeira cadê sua miséria não é só poeira cadê
sua miséria: mas o ovo de outras coisas.

Os homens que falam poeira cadê sua miséria
se vestem de poeira cadê sua miséria. Eles se
conhecem desde-o-ó-do-mundo pela música
que poeira cadê sua miséria faz neles.

O modo de falar poeira cadê sua miséria deixa
a língua no sal.

Os homens que falam poeira cadê sua miséria
treinam de usá-la. E nunca repetem o que dis-
seram no camaleão poeira cadê sua miséria.

 

 

 

EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA (1963). É docente de literaturas em língua portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (Minas Gerais). Na área de antropologia social publicou, dentre outros, o livro Mundo encaixado: significação da cultura popular (1992). Sua obra poética foi reunida nos volumes Zeosório blues, Lugares ares, Casa da palavra e As coisas arcas (2003). Seus livros de poesia mais recentes (2017) são: E (Editora Patuá); Qvasi (Editora 34) e Caderno de retorno (Ogum’s Toques Editora). Os poemas acima foram extraídos do livro O homem da orelha furada (Edições d’lira, 1995).

Créditos da foto: Congado, Nova Era (MG). Autoria: Jacqueline Machado, 1986.

 

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