Estou indo distante
Estou partindo hoje, deveria ter dizer. Estou indo para longe. Para o norte, rochedos inóspitos, vales estreitos, fiordes. Sentir um pouco dos ventos boreais na minha face rosada de frio, quase congelando. Estou indo. Lá para o outro canto do Pacífico, Pacífico sul. É preciso aquele ar de litoral nas minhas narinas, sujando de areia minha traqueia e bronquíolos. Um coquetel gelado e pés molhados, é preciso. Estou indo. Dunas arenosas, sol escaldante, terras áridas. Ferir a fogo, queimar essa pele branca osso em algum deserto. Estou indo. Para aquele lugar que não sei onde. Para onde a vista não alcança e a memória não atinge e as lembranças não invadem e a falta não pesa quase insuportável nos ombros. Estou partindo hoje, precisava te dizer, precisava ir. Para o remoto, para o distante, para o quase intangível aos dedos. Longe dessa cidade, germes urbanos, saneamento precário, ar pesado e desse caos maluco que se apossou de mim. E ficar lá até os cabelos grisalhos, as rugas nas testas, varizes nas pernas e ossos porosos.
Até meu corpo se encontrar com o solo, respirar, me perder, me encontrar, me exaurir, morrer e assim voltar a viver quem sabe. Em qualquer dilúvio ou mar azul e praias brancas. Longe de mim, longe dos outros, longe de ti.
Estou indo para aquele lugar bem distante, não decidi ainda onde e nada vai mudar eu sei, continuarei o mesmo eu sei, fodido, depressivo, autodepreciativo que sou aqui, só que em outro idioma, eu sei. Essa fome no estômago é fome de quê? Vou-me embora para sempre, não demoro muito te juro. Pode parecer algo absurdo, mas precisava te dizer, dizer que não vou a lugar nenhum na verdade, você sabe onde me encontrar. Precisava te dizer.
Serena Franco nasceu em Brasília e tem 18 anos . É desenhista (retratista), faz pinturas a óleo e grafita. Gosta intensamente de Arte, mas a literatura sempre foi sua paixão, sendo desde criança uma leitora compulsiva (e acumuladora de livros frenética ). O mundo também é uma de suas paixões e o tem conhecido viajando por todo ele com seus pais. Coloca toda essa confusão de sentimentos e percepções que acumula em sua escrita, desejando ardentemente se tornar escritora um dia.
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