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Fernando Andrade – Apesar de você botar o homem contemporâneo na balança para aferir seu peso, sua massa de coeficiente de eficiência, seus contos vão para a leveza da linguagem, o riso meio sacana, da autoestima masculina. Como você processa estes textos sobre homens em pedaços.
Gaetano Buompane – Eu sou um autor italiano que escreve em português e publica no Brasil. Às vezes me pergunto se vou conseguir me encaixar no mercado editorial brasileiro, se posso ser compreendido profundamente nas minhas reflexões. É diferente de um autor italiano que uma editora brasileira escolhe para ser traduzido. O meu medo é que a minha visão eurocêntrica sobre algumas temáticas possa ser confundida com superficialidade ou com moralismo. Nesses contos eu fui sincero, abri totalmente o meu coração, a única tarefa do leitor é achar essa sinceridade entre as linhas irônicas, hilárias, que eu uso como arma para combater os meus medos. Há nesses contos, muitas referências à literatura italiana de Italo Calvino, Gianni Rodari e também à música de Edoardo Bennato, que fala de liberdade, de rebelião, de sonhos, usando as metáforas dos contos para crianças. Enfim, quero transmitir um olhar diferente, despertar a curiosidade dos leitores sobre o meu mundo.
Fernando Andrade – É imprescindível associar masculinidade ao poder financeiro, ao status social da grana, seus personagens gravitam percalços sobre autoafirmação social. Queria que você falasse um pouco do perfil destes personagens.
Gaetano Buompane – Este homem em pedaços sou eu, 100%. Não represento apenas a minha fragilidade, aqui sou um homem completamente destruído, os cacos estão espalhados no chão. Cada conto é um pedaço de mim que, com paciência, lendo o livro, o leitor vai pôr novamente no lugar para reconstruir a imagem inteira de um homem frágil, de forma alguma forte, mas com uma bela característica, a de ser um homem único, também com as suas imperfeições.
Fernando Andrade – O narrador tem sempre uma pitada de auto ironia sobre si mesmo. Como se rir de si fosse o melhor remédio para depressão masculina.
Gaetano Buompane – A literatura já me salvou várias vezes ao longo da minha vida. Percebi que quando perco o humor, a ironia ao afrontar os problemas, fica tudo muito mais complicado, e no passado já caí em períodos de depressão, até profundos. Ler, especialmente autores como Woody Allen, Martin Amis, Daniel Pennac, ou os italianos Andrea Camilleri, Stefano Benni, Italo Calvino, me ajuda a retomar aquela ironia para rir das minhas dificuldades também, para não viver com muita seriedade. Em um desses períodos péssimos da minha vida, decidi escrever uma espécie de diário contando os meus medos, a minha solidão, a minha depressão, mas com essa pegada hilária, criando situações absurdas, ou narrando os meus defeitos com muita ironia. Foi uma espécie de terapia que me ajudou muito.
Fernando Andrade – Bela homenagem à Italo Calvino em Visconde partido ao meio. Calvino falava através de suas fábulas do homem moderno, social, pós guerra. Seu homem pertence à modernidade ou à pós-modernidade.
Gaetano Buompane –Não sei a que pertence. E também não tenho a pretensão de falar em nome de todos os homens, é claro. Eu falo de mim, do que significa ser um homem como eu vivendo no mundo atual. Mas tenho certeza de que muitos homens podem se identificar em algumas das situações que descrevo nesses contos. Há reflexões sobre o próprio corpo, a decadência física, a vida com os filhos, a perda dos próprios sonhos, a morte. Eu não sei qual seja o modelo de homem da sociedade moderna, talvez hoje haja uma grande incerteza em dar uma única definição. Com certeza, aquela de salvar o mundo não pode ser tarefa de um homem só.
Eu acho que o herói em geral, mas sobretudo o herói clássico, é um reflexo idealizado e perfeito para o homem comum fugir das suas mil dúvidas e infinitas esperanças. Mas comete um grande erro quem acredita que o homem sempre foi todo de uma peça só.
Também o homem de outrora, autoritário, o chefe de família íntegro, o condottiero pronto à morte pelos seus ideais, era um homem dilacerado pelas dúvidas e incertezas, que muitas vezes levaram a derrotas terríveis. O verdadeiro homem pode ter muita coragem, mas isso não significa que seja sem medo algum.
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