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Fernando Andrade – Tua poesia visual carrega uma visceralidade onde o semântico, os sentidos se casam com a estética do branco na página. É pictórico e bem bonito as palavras deslizando pela mancha tipográfica. Comente.
Muito grato Fernando, fico muito feliz que tenha gostado dos poemas visuais. A poesia concreta acessa diferentes sentidos, e o poema vai além das palavras, se tornando um objeto visual. A palavra tem aspectos conteudistas, seguramente, mas também possui um aspecto gráfico-espacial e acústico-oral, como apontou Haroldo de Campos em um de seus manifestos sobre a poesia concreta. O poema é verbivocovisual, termo cunhado por Joyce e transformado pela tríade concretista brasileira (Augusto, Décio e Haroldo). Assim, esses poemas mesclam as potencialidades artísticas da palavra (“verbi”), da sonoridade (“voco”) e da imagem (“visual”). O movimento concretista assume que a linguagem é maior do que o significado das palavras pura e simplesmente. Augusto de Campos afirma que “a poesia concreta começa por assumir uma responsabilidade total perante a linguagem”.
O branco da página é essencial. Stéphane Mallarmé e o seu “Um lance de dados” de 1897 inaugura o que se convencionou chamar “método prismático”, explora o espaço em branco para construir uma “sintaxe espacial”. O espaço em branco tem que ir além da moldura, ele deve assumir papel de protagonista. Por exemplo, no poema “Queda”, que abre o livro, o espaço em branco crescente entre os versos cria no leitor e na leitora e sensação de queda. É importante ressaltar também o grande trabalho da Editora Litteralux que captou muito bem a essência da obra e materializou extraordinariamente os poemas.
A forma também obriga também a uma negociação de leitura. Muitos poemas não podem ser lidos da forma tradicional, o leitor e a leitora precisam achar o fio e puxar. Isso aumenta a relação e participação de quem lê na construção do poema que só termina quando lido, quando o leitor e a leitora emprestam as cores de suas vivências para construção da obra poética, não raras vezes muito diversa do(a) poeta.
Você notou muito bem o peso semântico para além da forma, da visualidade, presentes nestes poemas. De fato, me preocupo bastante com a significação da poesia para as pessoas, em que pese o fato de que a arte não precisa ter uma função prática na vida das pessoas. A arte, nesse caso a poesia, simplesmente é. Ferreira Gullar dizia que “a arte existe por que que vida não basta”. Ser arte é a função da arte. Ela faz pensar, faz refletir ou simplesmente, ela é bálsamo, teto, é abrigo, é remédio que, como escreveu lindamente Ricardo Aleixo, “cura, mas pode matar”. Quero que meus poemas façam bem às pessoas que o leem.
Fernando Andrade – Como a física e a poesia se casam na sua arte poética, que enlaces as duas podem ter na sua escritura.
José Huguenin – É uma oportunidade rara poder vivenciar estes dois lados. No campo dos saberes há duas coisas que quase sempre são tomadas como antagônicas: razão e emoção. A ciência é o legado do lado racional do homem, enquanto a arte, a Poiesis, é o fruto da sensibilidade e emoção humana. O filósofo da ciência Gaston Bachelard definiu o espírito científico, atribuindo-lhe características diurnas, ligadas ao labor, à razão, e o espírito poético, com características noturnas, ligadas às artes, ao divertimento, por assim dizer.
Essa mistura de poesia e ciência, aurora e ocaso, fronteiras entres os espíritos poéticos e científicos, promove um diálogo entre linguagens. O linguista, filólogo e escritor Marcelo Moraes Caetano, meu confrade da Academia Fluminense de Letras, em recente ensaio publicado na Revista da Academia Brasileira de Filologia que parte de um ensaio de minha autoria sobre ciência e poesia, defende que tanto a ciência quanto a arte pertencem ao campo da poética. Essa tese é revolucionária e acredito que os poemas da primeira parte do livro, Continuidade, são provas materiais desta tese.
Décio Pignatari em seu livro Semiótica & Literatura diz que o ícone é o signo da arte e o símbolo o signo da ciência e da lógica e nada impede que estes se confundam em altos níveis de criação.
Ao vivenciar a física através da minha atuação profissional e a poesia a partir da minha manifestação artística, percebi, que há momentos de transição entre o dia (razão) e a noite (emoção) em que não podemos distinguir claramente uma coisa e outra. Mas veja, entre o dia e a noite, temos o ocaso. Entre a noite e o dia temos a alvorada. Nesses casos, há uma penumbra onde não se enxerga direito por ser quase noite e os faróis já não iluminam muito, por ser quase dia. São nesses espaços de tempo que habitam boa parte dos poemas deste livro.
Fernando Andrade – Na terceira parte eu acho que ficou um pouco abaixo das suas poesias visuais, não gostei tanto da produção ficando um pouco rotineiro. Fale desta parte, Prosseguimento.
José Huguenin – Talvez seja normal essa impressão se você fez a leitura da parte Prosseguimento imediatamente após ler Continuidade e Contiguidade, que trazem os poemas concretos, a poesia visual. A poesia concreta é verbivocovisual, como mencionamos anteriormente. Como você bem notou, a verbivocovisualidade dos poemas das duas primeiras partes do livro possui, ainda, uma forte carga semântica. Assim, um único poema mexe simultaneamente com diversas sensações. O leitor e a leitora são potencialmente mais tocados, mais atingidos, com esses poemas.
Em Prosseguimento a poesia continua initerruptamente em outra plataforma, usa os versos livres, forma de expressão preferida entre os(as) poetas pós- modernos(as) e, ouso dizer, a forma mais utilizada na atualidade. Os versos livres estão presentes na maior parte dos livros de poemas contemporâneos.
Os poemas de versos livre são predominantemente verbais e, portanto, vão ativar menos sensações no leitor e na leitora comparado aos poemas concretos. Acrescente-se a essa tradição poética o costume de tratar de temas cotidianos na poesia, trazer as coisas da vida para o centro do poema, a rosa do povo.
Então, vemos que há uma diferença grande na complexidade estética e na linguagem entre estas duas formas (poemas visuais e de versos livres), que fica muito evidente quando se faz uma leitura direta do livro.
Ainda assim, acredito que há experiências estéticas muito interessantes em Prosseguimento. Por exemplo, no poema Superposição, a palavra “Rio”, verso inicial, pode ser lida como verbo ou como substantivo. Se o(a) leitor(a) ler o verso como verbo, a conjugação do verbo “rir”, o poema é sobre um ser humano. Se o ler como o substantivo “rio”, é sobre o sertão, o bioma. É, a rigor, dois poemas superpostos, daí o título. Outro exemplo é Poesia em libras, que pode ser vista como uma metalinguagem circular. O poema constrói a imagem de uma declamação de poesia na Língua Brasileira de Sinais. Falando em construção de imagens, Linguagem corporal também cria imagens de uma cena com formas não verbais de dizer “não”. Do ponto de vista lírico, os poemas-azuis, que fecham o livro, tocam na relação íntima com meu filho, que é autista, e acredito que cumprem o papel de despertar emoção na leitora, no leitor.
Os poemas de Prosseguimento foram criados ao longo de mais três anos. Se encaramos um poema como obra independente, dentro da tradição poética, as antologias trazem peças com diferentes temáticas, muitas vezes aleatórias. A maioria das antologias reúnem os poemas que tem vidas próprias. É diferente de clássicos como Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, ou mesmo das epopeias clássicas, em que todos os poemas tem uma convergência temática ou função narrativa. Por sugestão do poeta e amigo Christovam de Chevalier, que me deu a honra da leitura e da escritura do prefácio, separei os poemas seguindo uma certa temática em duas subpartes: Tempo & Movimento, devotado ao tempo histórico, com poemas reflexivos como a série Independências e os poemas Zumbi e Yanomamis, e ao movimento, sobretudo, interno, das coisas e das pessoas, como nos poemas Passar e O movimento da pedra, entre outros. Depois, Palavra & Sentimento traz poemas que refletem sobre a poesia, a escrita, como Poema a la Eco, que explora uma visão de Umberto Eco sobre a escritura de poemas e fecha com poemas intimistas, como os poemas azuis, já citados.
Fica o convite para revisitar essa parte do livro depois de se afastar um pouco da leitura dos poemas visuais. Acredito que possa ter uma experiência diferente com estes poemas.
Fernando Andrade – Como é teu processo de criação? Na relação entre visualidade e significados, tendem ao abstrato, pela espacialidade. Comente.
Escrevo poemas deste a adolescência. No ensino médio, a capa de meu livro de Língua Portuguesa trazia um trecho do poema Procura da poesia, de Carlos Drummond de Andrade: “Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos. / Estão paralisados, mas não há desespero, / há calma e frescura na superfície intata. / Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. / Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.”
Esse trecho moldou minha forma de escrever poemas. Eu convivo com eles.
As ideias vêm, deixo os poemas me provocarem, eles amadurecem. Quase sempre quando sento para escrever eles estão maduros o suficiente. Burilo-os um pouco depois. Não muito.
Com os poemas visuais o processo é parecido. As imagens são arquitetadas antes de virem para o papel, posso ver os poemas visuais, quase tocá-los, antes de escritos, ou seria melhor dizer, construídos? No caso dos poemas envolvendo a física, o passeio pelos conceitos físicos, por exemplo, através do sumário de um livro de física básica, vou tendo ideias de concebendo possíveis formas linguísticas para explorar o conceito e que significados são melhor acolhidos pela forma.
Não abro mão dos significados. Busco sempre imprimir um valor semântico aos poemas visuais, tento deixar tais significados identificáveis e, por isso mesmo, a abstração é primordial e terá um papel fundamental na leitura e na construção final do poema pela leitura, como mencionei antes.
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