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Fernando Andrade – Fiquei surpreso por certa espontaneidade, no trato da linguagem, humor, brincadeiras, lances sutis, você surpreende seu leitor com suas inúmeras facetas poéticas. Comente.
João Ricardo Terra – O Neon ficou assim. Vejo que nele foi se depurando uma linguagem mais da essência, numa espécie de celebração do “mínimo necessário”. Procurei escrever com os pés no chão mais simples da vida, penso que isso pode ter ensejado esse sentimento de liberdade que você reportou, já que verdade combina com espontaneidade. A linguagem foi fluindo como em uma conversa cotidiana entre amigos ou entre amantes, aberta a acertos e a enganos, a olhares e silêncios, que amplia suas margens para pequenas surpresas dentro da própria linguagem. Por outro lado, desconfio que há um limite tênue para esse exercício, a fim de que o poema não se banalize… pois ele deve manter alguma profundidade, algum contato com os veios do mistério, e a gente deve sentir a presença da poesia pulsando ali. É algo instintivo, não puramente intelectual. Há algo de lúdico e de trágico nesse trato com a palavra, e muitas vezes a gente precisa brincar para falar de coisa séria.
Fernando Andrade – A palavra mordaz pode remeter a certa ironia, mas também pode nos sugerir certa crítica ao status quo. Ao sistema, seus poemas revelam certa mordacidade, é precisa minha afirmação?
João Ricardo Terra – Creio que sim. Entendo Poesia também como uma forma de resistência, ainda que empreendida de forma leve e despretensiosa, como tentei fazer. Um ato de resistência a nos proteger em nossas mais profundas e autênticas humanidades. Nesse sentido, penso que você possa ter captado, nos poemas, meu desconforto com a redução da experiência do existir que parece ocorrer em nossa sociedade, ao menos em minha percepção. O ato poético pode ser um grito (às vezes, em forma de sussurro) de basta, segundo entendo. Em alguma instância, um poema pode produzir tal efeito, sem se restringir a ele.
Fernando Andrade – A alusão nem sempre vem com metáforas, pode mais vir um clima de sugestionamento, de poder das entrelinhas. Fale um pouco sobre isso se é certo seus poemas serem alusivos.
João Ricardo Terra – Criar o clima em vez de declará-lo: por isso “neon”. A própria ideia de neon pressupõe a existência do escuro, da penumbra, caso contrário o neon nem seria visível. Acredito que a linguagem tenha mesmo uma forma em negativo. Desse modo, sugerir em vez de explicitar nos possibilita escapar do racional demais, do programático demais. Há uma complexidade de múltiplos significados que a linguagem poética é capaz de evocar, com a sua polissemia característica, que também está presente no sonho: algo que não fica saturado de um sentido apenas e, a cada vez que é narrado, é narrado (e recebido) de uma forma diferente. Essa construção alusiva que você destaca vai sendo conduzida por meio de fragmentos de cenas, de partes de objetos. Quando nos damos conta, sem entender, estamos… vendo! Sinto que a poesia passeia também por aí, e tenho constatado isso nos comentários das pessoas que leem meus poemas e enxergam coisas que, inicialmente, eu mesmo não havia percebido. É quando um poema se realiza de fato, nos olhos e no coração de quem o lê, o que já independe do poeta. Então esse processo de sugestionamento por entrelinhas se amplifica a um nível formidável, a perder de vista.
Fernando Andrade – Há sempre certa linha de enredo em seus poemas, como se neles estivesse certa sinopse de uma história. Comente.
João Ricardo Terra – Sinto que isso tem a ver, ainda que indiretamente, com as minhas próprias angústias em relação à questão do tempo e de sua passagem (com a ideia de finitude, enfim). Acho difícil lidar com um determinado fenômeno de um ponto de vista puramente estático ― o que poderia estar mais próximo, talvez, de um ato descritivo. Mas mesmo uma estátua, se a gente observar bem de pertinho, está em constante transformação. No processo de criar, se se impõe a presença de algum estado em particular, entendo-o como elemento de uma sequência maior. Como tudo no mundo parece ter um ritmo subjacente, entendo que esse ritmo esteja implícito na sucessão das imagens e dos sons de um poema, o que nos dá a ideia de movimento, de trajetória, de enredo. Tento trabalhar os poemas (admito que isso quase nunca é um processo voluntário) de tal maneira que eles se comportem como micronarrativas que vemos na linguagem cinematográfica, por exemplo, no contexto maior da obra, ou no trecho de um sonho, novamente, que conseguimos recordar. Então esses pequenos trechos narrativos, algumas vezes díspares, vão se compondo mutuamente, até formar uma história mais ou menos possível, que nunca se completa. São as nossas pequeninas epopeias diárias ocorrendo, eu diria. Elas juntas formam nossas vidas.
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