Fernando Andrade entrevista a escritora Ivete Nenflidio “Monstros abissais e cavalos-marinhos”

Ivete Nenflidio. Para mim, a arte constitui um ato político não apenas quando se propõe explicitamente a sê-lo, mas também quando opta por não o ser. Essa aparente neutralidade, frequentemente interpretada como isenção, carrega, a meu ver, uma dimensão política profunda. A ausência de posicionamento pode ser tão significativa quanto uma declaração explícita, pois, muitas vezes, implica uma adesão tácita ao status quo.
Minha prática artística nasce, portanto, da necessidade de assumir uma posição diante das questões sociais e políticas que me atravessam. Recordo um episódio marcante, ocorrido há quase duas décadas: quando trabalhei com o jornalista e musicólogo Zuza Homem de Mello em um evento gratuito de blues realizado em uma praça pública.
Durante o evento, uma jovem jornalista questionou como uma música “sofisticada” como o blues poderia ser apreciada por tantos jovens da periferia. Zuza respondeu com uma verdadeira lição de história e crítica cultural: “o blues, surgido no século XIX no sul dos Estados Unidos, é fruto da experiência dos trabalhadores negros rurais. É uma expressão de dor, resistência e criatividade diante do racismo e da opressão. Dessa forma, o blues é, desde sua origem, uma manifestação política, independentemente dos modos de recepção, por conservar em sua estrutura simbólica a memória e a voz de seus criadores, uma voz ancestral de sujeitos historicamente marcados pelo sofrimento e pela perseguição sistemática.”
Concordo, portanto, com a máxima de que “todo ato estético é um ato político”.
Toda forma de arte, seja música, literatura, teatro ou qualquer outra performance artística inscreve-se em um campo simbólico de disputas, pois carrega valores, crenças e visões de mundo tanto do sujeito criador quanto do contexto sociocultural em que se insere. Mesmo a obra mais silenciosa, ao existir, ocupa um lugar e se posiciona no mundo.
A arte, portanto, constitui um gesto político que carrega em si um poder singular de humanização e sensibilização. Ao propor experiências estéticas que revelam emoções, corpos e histórias frequentemente marginalizadas, a arte desafia as narrativas hegemônicas e amplia o campo do debate crítico, social e cultural.
Ao abordar temas relacionados a gênero, raça, território e classe, a criação artística se transforma em um espaço de escuta, empatia e resistência simbólica. Nos últimos anos, observei o surgimento de uma poesia que emerge justamente desses lugares de fala historicamente silenciados, vozes que tensionam as fronteiras da linguagem e ampliam o espectro representativo da literatura contemporânea. Essa movimentação foi, inclusive, evidenciada no debate público em torno de um importante prêmio literário recente, em que se destacou o papel transformador dessas novas vozes plurais no panorama literário, antes dominado por perspectivas homogêneas.
Essa arte que irrompe das margens e questiona as estruturas tradicionais é a mesma que mantém vivo o debate sobre o papel ético, político e social da criação. Ao produzir obras que buscam sensibilizar, provocar reflexão e deslocar certezas, procuro construir narrativas que reinstauram a humanidade como centro do discurso. É nesse espaço de encontro entre a estética e a política que reconheço a potência transformadora da arte.
Produzir arte é também produzir política, ainda que por caminhos sutis, silenciosos ou inesperados.

Fernando Andrade. Você tem um lado de expressar através das palavras bastante expansivo. Como é tua escrita escrevendo desta forma?

Ivete Nenflidio. Trabalhei por muitos anos com artistas da música, do teatro, e de diversas outras linguagens. Como produtora artística acompanhei o cantor e compositor Renato Teixeira.
Durante seis anos, percorri todos os estados e capitais do país, muitas vezes em regiões periféricas ou remotas, algumas sequer registradas nos mapas. Muitas dessas viagens exigiam longas jornadas terrestres, dez, doze horas de deslocamento, quando o acesso aéreo era simplesmente inviável.
Levava comigo, quase que como um ritual, um caderno no qual registrava cada acontecimento: relatos anedóticos, episódios de risco, circunstâncias inusitadas. Entre essas memórias, recordo o pagamento recebido de parte de um cachê em cinco mil notas de um real e uma tarde inteira de conversas sobre filosofia e arte com Geraldo Vandré, em seu apartamento no centro de São Paulo.
São experiências que dificilmente caberiam em uma entrevista, mas que se tornaram o substrato das minhas narrativas. Renato dizia: “anota tudo!” — e eu o fiz com diligência, consciente de que cada detalhe poderia se converter em matéria literária, um artigo ou uma pesquisa de estudo cultural.
A convivência contínua com artistas, letristas e compositores ampliou profundamente meu horizonte interpretativo, permitindo-me acessar um campo mais vasto e plural da cultura brasileira. Essas experiências de deslocamento e convivência marcaram profundamente a minha escrita: o movimento constante, o contato direto com diferentes modos de vida e criação, a imersão em contextos diversos e, por vezes, desafiadores, tudo isso alimentou minha percepção artística e literária. Esses diversos Brasis que conheci e aprendi a amar.
Após três décadas de atuação no campo da arte, afirmo que minha produção se fundamenta na valorização da cultura brasileira e em sua complexidade. Em uma perspectiva mais analítica, reconheço que meu estilo de escrita é, de fato, expansivo; não por uma busca deliberada por amplitude, mas por se fundar na etimologia das experiências, isto é, em sua origem, percurso e transformação. Procuro reconstruir narrativas que ultrapassem o mero relato factual, buscando captar a totalidade da experiência: sua gênese, suas reverberações e seus desdobramentos simbólicos.
Interesso-me menos pelo acontecimento em si e mais por sua genealogia, por suas repercussões e pelos gestos, silêncios e imagens que emergem na fronteira entre a observação e a criação. Esse processo me permite revisitar os eventos em sua complexidade, transformando cada fragmento vivido em produção cultural que dialogue com o leitor de modo profundo e abrangente. Escrevo não apenas o que vi, mas o que senti, o que me tocou, o que aconteceu no entremeio do cotidiano e do extraordinário, procurando oferecer narrativas que traduzam a densidade e a beleza da experiência humana.

Fernando Andrade. Imago é uma forma um tanto idealizada de buscar em nós mesmos, mas você tem uma auto avaliação de si através de sua poética bastante eloquente. Como é falar de si em poesia. Comente.

Ivete Nenflidio. Comparo meu fazer artístico a pequenos roteiros cinematográficos. O cinema, assim como a música, são paixões que acompanham minha trajetória e influenciam profundamente minha forma de escrever. No fundo, meu objetivo com a escrita é transformar palavras em imagens, de modo que o leitor “veja” o que está sendo narrado.
Cada poema ou fragmento literário é, de certa forma, uma cena de filme, com trilha sonora, enquadramentos, fotografia, iluminação, cenografia e movimentos que buscam capturar a essência de uma experiência ou sensação.
Falar de minha escrita é, simultaneamente, falar de um mergulho entre o que é monstruoso e a delicadeza. Cada poema carrega fragmentos de minhas vivências, memórias e emoções, além de um impulso inventivo que ultrapassa o autobiográfico. A literatura me permite tocar aspectos da minha própria existência que, de outra forma, permaneceriam ocultos, e, ao mesmo tempo, criar espaços de identificação com o leitor. Assim, minha escrita fala sobre mim, mas também sobre o mundo que nos cerca, um diálogo entre o íntimo e o coletivo.
Recentemente, compartilhei o manuscrito de um romance inédito com um amigo, jornalista e professor. Precisava ouvir sua opinião. Sua resposta me deixou profundamente feliz: ele disse que conseguia visualizar as cenas como se estivessem projetadas na tela de um cinema. Esse comentário confirmou a importância da visualidade em meu trabalho e reforçou que minha escrita é, antes de tudo, uma tentativa de traduzir o mundo em palavras e imagens que possam ser apreendidas pelos olhos e pela mente.
O desejo de que a leitura se converta em uma experiência visual e quase tátil constitui, sem dúvida, uma das características centrais do meu fazer poético. A atenção à materialidade da linguagem e à construção de imagens poéticas é constante, orientando um trabalho em que cada palavra é selecionada não apenas por seu valor semântico, mas por sua potência imagética e por sua capacidade de provocar experiências perceptivas no leitor.
Acredito que a poesia pode ser um “cinema em miniatura”, observado por binóculos, em que o leitor se torna simultaneamente espectador e protagonista, percebendo nuances antes invisíveis.
Nos meus textos, utilizo recursos metafóricos e estéticos para criar imagens que transcendam a simples representação. Trata-se também de um exercício de atenção à cadência e à sonoridade da língua portuguesa, sempre com o propósito de tornar palpáveis as experiências que desejo transmitir. No fundo, misturo várias linguagens por tê-las vivido de forma visceral, o que torna minha criação quase uma arte de múltiplas expressões.
Durante os primeiros anos da pandemia, realizei mais de oitenta produções audiovisuais, entre documentários, entrevistas e apresentações musicais e teatrais, em um contexto em que a arte se configurou como um território de risco, atravessado pelo isolamento e pela necessidade de reinvenção. Nesse período, foi possível observar como artistas se adaptaram para garantir sua sobrevivência e como a prática artística se revelou essencial à manutenção da saúde mental coletiva. Ao rememorar essa experiência, reconheço nela um marco significativo: a arte assumiu um papel vital, oferecendo equilíbrio, amparo e sentido em meio à dor e à solidão. Uma dimensão política no mais profundo sentido do termo.
Espero que meus leitores consigam visualizar minhas narrativas dentro dessa dimensão do meu fazer poético, amplo, não pelo desejo de sê-lo, mas porque não há outra forma de me manifestar. A escrita, para mim, é uma lente através da qual observo o mundo e ofereço ao outro a possibilidade de também vê-lo, um convite para enxergá-lo sob uma perspectiva mais sensível e, quem sabe, mais bonita.
Em última análise, meu trabalho poético configura-se como um convite à contemplação visual e afetiva da realidade. Essa fusão entre palavra, som e imagem, entre poesia, cinema e música, define meu estilo — se é que existe um — e orienta minha busca artística, transformando cada narrativa em um roteiro sensível, no qual emoção e visualidade se entrelaçam.

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