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Fernando Andrade – Os desencontros afetivos nos papéis sociais que o personagem narrador se molda, deixa sua trama muito bem montada como uma pequena comédia triste, como você pensou o personagem nesta sua constituição.
Jorge Sá Earp – A ideia inicial deste romance, “A volta do arlequim”, ou melhor dizendo a primeira imagem que me veio foi da Praça N.S. da Paz em Ipanema e de garotos jogando bolas de gude. Essa imagem me veio de alguma gaveta da memória. Só que pode ter sido em outra praça, a Antero de Quental talvez, pois sempre morei no Leblon. Daí surgiu o personagem-narrador, que se lembra dessa cena e a partir dela foram surgindo várias outras. Decidi então que o Norberto estaria voltando ao Rio depois de uma longo período no exterior, já que seu estado de ânimo é nostálgico. Aos poucos o personagem principal foi tomando forma, ficou casado com uma italiana e com dois filhos. Pois no início quis fazê-lo heterossexual, já que tenho tantos personagens homossexuais. Mas não consegui; a mão foi, e ele acabou sendo bissexual. Não acho que ele esteja inserido em uma comédia; considero sua vida com lances mais tristes. Tchekhov considerava todas suas peças comédias. Não concordo com ele.
Fernando Andrade – O personagem usa certas máscaras com certos arquétipos como do Arlequim, como dentro do livro ele fosse um duplo personagem, atuando, encenando verdades e ficções. Parafraseando, Pessoa, todo personagem é um fingidor. Comente.
Jorge Sá Earp – Acho que a maioria de meus personagens – os protagonistas, pelo menos – apresentam essa dupla face do deus romano Janus. O Norberto é, a um tempo, Pierrô e Arlequim. Não porque ele queira. É assim por temperamento, porque nasceu assim ou foi educado assim. Os dois fatores: genética e educação. Particularmente gosto dessas duas faces, me identifico com elas. Quanto ao lado fingidor, é inevitável: infelizmente vivemos numa sociedade povoada de atores. E esses atores necessitam de máscaras. Grande teatro do mundo.
Fernando Andrade – Seus livros usam certa autonomia para construir pessoas, pois seus livros adotam certas referências eruditas, tramas do duplo eu, auto enganos, é como se o autor estivesse criando um mito sobre a possibilidade da biografia. Comente.
Jorge Sá Earp – Sua pergunta logo me remeteu à novela ou conto de Dostoesvski, O Duplo. Há vários tratamentos do tema na literatura universal. Me vem agora um conto do Gastão Cruls, que aborda o tema do duplo, nesse caso um sósia, com características idênticas, não só físicas como psicológicas. No meu romance de 2019, “As amarras”, o personagem principal, Eusébio se comporta às vezes como um introvertido, outras como um extrovertido. Seu nome mesmo tirei da informação fornecida por um amigo músico, a partir de uma biografia de Schumann. O compositor alemão se atribuía dois eus: um melancólico, a que dava o nome de Eusébio; e outro esfuziante, a quem chamava de Florestan. E assinava suas obras com esse nomes, segundo o estado de espírito dessas. A verdade é que, uma vez criados, os personagem criam vidas próprias, ficam autônomos. Não sei se quero criar mitos. Acho que não. Mas acredito em Pirandello: os personagens acabam por te dominar, fogem ao seu controle.
Fernando Andrade – Se você fosse um personagem de um livro, como leitor, você o escreveria desta mesma maneira, como o escritor o formulou. Um leitor\autor.
Jorge Sá Earp – Difícil – se não impossível – separar o escritor do leitor. Sendo eu o escritor. Porque, como leitor, muitas vezes fico desenvolvendo uma trama paralela ao livro que estou lendo. Ou bolando um final para o livro que ainda não terminei. Criando junto com o autor. Comigo mesmo isso é impossível. Ou seja: quando escrevo rumino muito. Imagino várias versões de uma mesma cena. Não de todas as cenas do livro, mas das cruciais. Mas se eu fosse o personagem de uma biografia minha, mudaria sim completamente seus traços só pelo prazer de contrariar.
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