Romance, Memórias de uma menina morta, com leveza e pegada poética, encena a luta de uma mulher por emancipação feminina na década de 30.

Sandra Godinho Memorias de uma mulher morta scaled - Romance, Memórias de uma menina morta, com leveza e pegada poética,  encena a luta de uma mulher por emancipação feminina na década de 30.
 
 
 
 

Fernando Andrade | escritor e jornalista

O livro é uma memória de outro lugar e tempo. Ele está aqui e agora com a gente, podemos manuseá-lo, folhear, ler, reter, ele não morre nunca. Mas você um dia que é leitor deste livro sumirá. Podemos dizer que temos um luto sobre o livro. Não o livro que terá o luto de nós pobres, mortais. Quando lemos, estamos em presença física, com aquela história, somos também um personagem invisível mas não atuamos. Somos críticos daquilo que lemos. Mas não quero ser crítico, quero ser um leitor apaixonado, que mergulha história adentro, sem ir à superfície. Quando leio o novo livro da Sandra Godinho, memórias de uma menina morta, editora Praga, faço inteira imersão na vida de Maria, menina que mora com a família num sítio no sul do país, na época do governo Vargas. O irmão Firmino doente, quase não sai da cama. Maria terá inúmeros lutos para amadurecer como mulher que não lhe cabe a vida de operária de sítio que o pai lhe confiou. Sandra mantém uma pegada leve e poética na linguagem cheia de nuances, cheias de camadas internas sobre certa tendência à liberdade e ao feminismo da personagem. ela tem como principal amiga, Nina, menina de origem italiana, que mora perto do sítio de Maria. Ambas serão o esteio da narrativa afirmando sua posição feminina depois de irem para cidade, Caxias, já contextualizada num governo Vargas, trabalhando ambas numa fábrica de armamentos. A autora cria um imaginário poderoso, para o leitor de como a mulher poderia se emancipar tanto profissionalmente como afetivamente de uma sociedade patriarcal. Maria no decorrer de sua trajetória trabalhará o luto do pai de Nina, internamente, para se reafirmar como pessoa, para trazer à tona sua humanidade mais latente.

Please follow and like us:
Be the first to comment

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial