Fernando Andrade. A música como o poema existe algo de sugestão, algo desenhado mas ainda não “pintado”. Seus poemas carregam esta carga sugestiva de algo ainda por fechar, mas que ainda está no meio tom. Comente.
Tânia Rêgo. A música tem essa propriedade de ser matéria invisível, que ao mesmo tempo é vibração, frequência, cor ou sensação de cor. Então, sinto que lhe é peculiar uma suspensão, tensão e relaxamento, que a faz continuar dizendo, mesmo tendo chegado ao final. Penso bastante sobre isso. Gosto de refletir sobre essa espécie de “mistério” que existe na palavra, no som, na arte. O inesperado, o espanto que essas expressões podem nos causar.
Esse “inacabado” que você fala, como algo a abrir-se e/ou a ganhar novas interpretações, talvez contemple (também), o lugar do público, de quem vai interagir com a obra. Mesmo sendo, muitas vezes, um exercício solitário, o processo do trabalho artístico está imbricado com o coletivo, com o social, com quem vai fluir essa criação. Nesse viés, inclusive, há a ação do sentimento – a maneira como as pessoas são afetadas- que é sempre próprio, único. Como nos fala Adélia Prado, em seu poema “Ensinamento”, o sentimento é a coisa mais fina do mundo. Ele reinventa, refaz a própria obra lida ou apreciada; dando novos significados a ela. A potência da arte, a meu ver, é a capacidade de promover transformação. Não se passa ileso por uma experiência artística ou pelo menos não se deveria. Isso me é caro.
Fernando Andrade. O traço ainda não é o rosto, são partes de um conjunto que forma a fisionomia. Por isso quero insistir na questão da pintura, cores, matizes, sobretons, pinceladas. Fale um pouco desta criação poética sua.
Tânia Rêgo. Tenho afinidade com as Artes Visuais. Fui uma criança que gostava muito de desenhar, pintar. Tive incentivos da família e investi algum tempo nessas experiências. Trago boas lembranças da minha Graduação em Educação Artística (habilitação em Música), na Universidade de Brasília-UnB. Cursei algumas disciplinas de Desenho, Pintura, entre outras, que foram experiências enriquecedoras.
A área de Artes tem as suas quatro linguagens distintas (Artes Visuais, Dança, Teatro e Música), com epistemes e formação específica. No entanto, elas se atravessam e se complementam. Gosto de explorar as intersecções das distintas formas de expressões artísticas, de brincar com o repertório que surge nos momentos de atravessamentos e nos momentos de distanciamentos. Reconheço o limite e a autonomia, necessários, de cada uma dessas Linguagens da Arte. Tenho interesse na pesquisa e na análise das peculiaridades dessas ciências. A busca de respostas nas escavações desses fazeres artísticos também me interessa. Crio métodos e metáforas que podem ser proveitosos na geração de ideias. Uma mistura de belezas que engendra desafios.
Fernando Andrade. Talvez seu título seja definido não como mudez, mas como certas lacunas criativas onde arte se aprofunda. Esta entrelinha onde o espaço ainda é branco, imaginoso. Fale mais desse silêncio.
Tânia Rêgo. Exato. Trato de um silêncio que diz muito. Assim como conceitualmente explorado por Cage, e por outros pesquisadores, sabemos que não existe um silêncio absoluto, haverá sempre um som, por mais sutil que seja, um movimento. A não ser que estejamos no vácuo ou talvez no momento da morte. Do mesmo modo, um som contínuo, sem pausas, não é matéria musical, seria um “ruído branco”, algo que o cérebro se “acostuma” e ignora. Esse título traz uma aparente ambivalência “Silêncio musical”. Coincidentemente essa ideia de oposição (que não se realiza completamente) também está presente no título do meu livro anterior, “Espraiamento do sólido” (7 Letras, 2017). Ambos brincam com os estados de incerteza das existências. São afirmações que se mostram relativas à luz de reflexões. Que nos levam a pensar: mas há música sem silêncio? Os corpos não são energia? Deste modo, o que era ambivalente vai ficando complementar, relativizado, muda de sentido ou adquire um outro sentido. Não é isso comum ao fazer poético?
Um outro aspecto importante de reflexão é perceber que o mundo, as cidades estão cada vez mais barulhentas. A possibilidade de se viver mantendo momentos silenciosos ou formas de comunicação sonora é cada vez mais difícil (como tínhamos com: os sinos, os pregões, entre outros). Vivemos em uma sociedade das caixas amplificadas, dos alto falantes cada vez mais potentes, desde comerciantes ambulantes, às escolas e repartições. As “paisagens sonoras” (como nos diz o compositor Murray Schafer), estão cada vez mais poluídas e, infelizmente, esse aspecto é despercebido por muitos. Buzinas, uso indiscriminado de música “ambiente”, microfones, alto falantes, entre outros aparatos, nos levam a uma impossibilidade de vivenciar o silêncio, de ouvir os sons mais suaves, a brisa, o mar, a respiração, o sussurro da poesia.
Fernando Andrade. Seu recurso estilístico é a concisão. Poucas palavras não significam falta, é próprio do exercício da música terem notas pequenas, e não cheias. Comente.
Tânia Rêgo. Sim. Algumas pessoas observam essa característica no meu modo de escrever; penso que aconteça pelo processo de trabalhar a palavra, como diz o Wisnik, a “escavação” na busca da palavra certa para aquele texto. Tenho alguns poemas longos, gosto da prosa poética e escrevo contos. Mas, no meu exercício poético essa concisão é bem comum. Não é falta. Em algum momento se instaura o pronto, não cabe mais nada. Esse ponto é sempre uma descoberta emocionante para mim. Às vezes, parece que ele chega à revelia, não está sob meu controle. Medra.
Semelhante como acontece na música, essa brevidade está relacionada ao que queremos dizer, podendo ser uma ideia bem representada por notas longas ou por notas sincopadas, não há uma regra fixa, vai depender. Mas, me encanta esse ponto da poesia que fala condensado, que logra em dizer “tudo” com uma ou algumas palavras, que bastam, que continuam dizendo, apesar de serem poucas.
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