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Fernando Andrade – Vozes podem dar ideia da totalidade das coisas, da importância da política quando há mudança, vozes fazem coro dos descontentes. Sua poesia busca esta luta pelo conjunto tanto sonoro quanto político. Fale sobre isso.
Francisco Perna Filho – Tudo começa com a consciência sobre o mundo e nosso lugar nele, não apenas o ato de estar vivo, mas o sentimento de pertencimento, de participação ativa na realidade que nos cerca. É nesse despertar que reside a importância da criticidade, da escuta atenta e da expressão consciente. Como você bem aponta, a poesia é uma forma de buscar essa voz, muitas vezes, um grito, tão necessário diante das urgências do tempo. Viver, por si só, já é um ato político, e a poesia se propõe a amplificar essas individualidades, a dar corpo e ressonância aos múltiplos espaços de fala, às vozes que foram silenciadas ou marginalizadas. Ela constrói um coro que não apenas denuncia, mas também propõe, questiona e transforma. É nesse entrelaçamento entre o sonoro e o político que a poesia encontra sua potência.
Fernando Andrade – A reflexão não é apenas um pensamento sobre um objeto, é preciso que haja a reação ao objeto, por isso a filosofia entra. É no choque que faísca explode ideias, conceitos, até afetos. Quando li seu livro pensei na filosofia do cotidiano. Comente.
Francisco Perna Filho – Como disse com sensibilidade Manoel de Barros, a poesia nasce das insignificâncias, da matéria desprezada, do que não tem importância aos olhos do mundo. É justamente aí que reside sua força: nada escapa ao olhar do poeta, que mergulha fundo naquilo que muitos ignoram, conferindo expressão ao inanimado,revelando outras faces do objeto, outras camadas da realidade.
A Filosofia do cotidiano se entrelaça com essa perspectiva, pois ela também se ocupa do gesto de eleger o objeto, de mirá-lo com atenção radical, de iluminar o que estava à sombra. Esse gesto não é neutro, é uma escolha política, uma tomada de posição diante
do mundo. Como mencionei anteriormente, trata-se de uma consciência manifesta, que sabe para onde direcionar o olhar, que reconhece os espaços de fala e os transforma em espaços de escuta, acolhimento e emancipação.
A reflexão, nesse contexto, não se limita ao pensamento abstrato sobre o objeto: ela exige reação, exige afeto, exige presença. É no atrito entre o sujeito e o mundo que surgem as faíscas, ideias, conceitos, inquietações. E é nesse embate que tanto a poesia quanto a filosofia do cotidiano encontram sua potência ética: ambas nos convocam a estar no mundo com mais atenção, mais sensibilidade e mais responsabilidade.
Fernando Andrade – A parte do todo, generalizar é impossível para examinar minúcias. Mas como se chegar ao todo, ao coletivo, para estar atento às minúcias. Explique esta sentença.
Francisco Perna Filho – – Imaginemos uma pintura: à primeira vista, o olhar se detém na totalidade, captando o conjunto como uma impressão geral. No entanto, é apenas com o tempo, com o exercício paciente da observação, que começamos a perceber as partes, os detalhes sutis que compõem essa totalidade. Movemo-nos de um canto a outro, explorando nuances, texturas, sombras e luzes, e é nesse movimento que a compreensão se aprofunda. A observação, nesse sentido, é mais do que um ato sensorial: é uma
prática essencial à humanização, pois nos ensina a ver com atenção, a reconhecer singularidades dentro do coletivo.
Em qualquer campo do saber, observar é traçar caminhos, definir coordenadas, afinar métodos e perspectivas. É por meio desse processo que se alcança o todo, não como uma soma de partes, mas como uma construção viva, dinâmica, que só se revela plenamente quando se respeita a complexidade de suas minúcias.
A poesia também nasce desse gesto indutivo: parte do íntimo, do fragmento, do recorte humano. Ela se debruça sobre as individualidades, os recessos da paisagem interior, e a partir deles tenta representar o coletivo. Mas não o faz de forma impositiva, como quem dita verdades. Ao contrário, a linguagem poética interroga, tensiona, discorda, acolhe.
E, nesse movimento, revela o todo, não como uma resposta definitiva, mas como uma abertura para o sentido.
Fernando Andrade – O capitalismo fatia, a poesia deixa inteiro, um pedaço de cada fome, tanto nas guerras, como na miséria, mas a miséria humana pode ser pasto para certa poesia dialética. Comente.
Francisco Perna Filho – No poema Inventário, inicio com uma pergunta que é mais que verso, é ferida e busca:
“o que há por trás dos olhos do poeta?
que resquícios ancestrais carrega sob as unhas?”
A poesia está em tudo, mas não se mostra facilmente. É preciso apreendê-la com o corpo inteiro, aprendê-la com humildade, evocá-la com coragem. Ela não se impõe: ela se revela quando o mundo já não suporta o próprio peso, quando o grito por justiça ecoa entre ruínas, quando o ar se torna escasso e os homens, alijados de si, se perdem.
A poesia nasce tanto na beleza arquitetada dos palácios quanto no voo breve e delicado das borboletas. Mas é também na dor que ela se ergue com força: na memória dos que vieram antes, na ancestralidade que pulsa sob a pele, na tensão entre Eros e Thanatos, vida e morte, desejo e fim.
Vivemos tempos de desencontro, de máscaras e mentiras, de tormentas sociais que se repetem como refrão. Gritos e fomes se acumulam nos becos da história, esquecidos pelos poderosos, ignorados por governantes de mãos manchadas, por profetas que
vendem salvação em troca de silêncio. O mundo clama, não por piedade, mas por justiça, por dignidade, por oportunidades que não sejam privilégio.
O capitalismo fatia: divide corpos, fragmenta sonhos, transforma vidas em estatísticas. A poesia, ao contrário, busca a inteireza. Ela recolhe os cacos, os pedaços dispersos, e tenta, na tensão que a linguagem permite, refazer o humano. Cada vida ceifada, cada grito abafado, cada miséria esquecida é matéria para o verbo que resiste.
Sim, há uma poesia dialética que se alimenta da miséria, não para estetizá-la, mas para denunciá-la, para devolver-lhe voz. Porque a linguagem, quando comprometida com o humano, pode ser pão, pode ser abrigo, pode ser esperança. E é por meio dela que ainda
podemos afirmar: a beleza é possível. Ainda é possível que os homens se olhem como irmãos, mesmo que distantes, mesmo que feridos, mas inteiros.
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